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Children of Death: Cap. III [+18] - Contos Perdidos
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Children of Death: Cap. III [+18]
Então, Livejournal me trollando de novo, tive que dividir o capítulo em duas partes. A segunda parte está logo abaixo dessa postagem, sigam até ela depois :) Só queria lembrar uma coisa aos leitores... essa é uma história de terror, não é de ação, então... entendedores entenderão depois de ler, hahaha. Qualquer coisa, comentem, critiquem, curtam, enfim, responderei aos comentários de todos, sem mais delongas...

Btw, perdão pela demora. Era pra esse capítulo sair sim no domingo, mas o fim de semana foi cheio e descobri que ia trabalhar segunda e terça, por isso não postei antes. Perdão pela demora, mas espero que gostem.

Divirtam-se!

Disclaimer: É minha. (Cópias não-autorizadas estão sujeitas a processo judicial)
Avisos: Contém cenas fortes e de violência. Classificação: +18

Children of Death

III. O Dia Mais Claro

O relógio digital no criado-mudo apitou quando mais uma hora tinha se passado naquela madrugada fria, eram exatamente duas da manhã. O barulho simples não foi o principal motivo, mas a mulher deitada na cama de casal entre lençóis beges despertou alarmada, o coração batendo acelerado, a respiração ofegante, os olhos levemente arregalados num susto que vinha de dentro de seu corpo, acumulando-se em sua garganta e formando um nó que a impedia de gritar qualquer coisa. Estava absolutamente sozinha em seu conhecido quarto, na casa que fora sua desde sempre… mas não estava exatamente onde devia estar, e aquela agonia crescente apenas confirmava aquilo: devia estar com ele.

O movimento brusco para sair da cama de casal fez com que os travesseiros e lençóis caíssem no chão de madeira. Ela não se preocupou de estar vestida apenas em uma calça de moletom e uma camisa de mangas compridas, ou com o cabelo curto totalmente desalinhado por ter acordado de súbito. Seu corpo falava mais alto, seus pés descalços corriam apressadamente e a guiavam quase em desespero para fora da casa de primeiro andar num bairro nobre da cidade.

Ela abriu a porta de entrada sem cerimônias, e a respiração ficou ainda mais falha ao notar que esta não estava trancada. O medo se apoderou de seu corpo enquanto ela corria até a calçada, olhando para os lados, as ruas completamente vazias naquela noite pouco iluminada pelos postes distantes e por uma lua minguante quase imperceptível no céu da cidade grande. A mulher não ficou mais que um minuto parada onde estava, tentando descobrir para onde precisava correr. Como um som de um sonho muito distante, a voz conhecida soou em seus ouvidos, mais parecendo vir de dentro dela do que de algum lugar ao seu redor. Já estava acostumada àquele sentimento, ao que ele era capaz de causar nela, em sua mente, em todos os seus instintos… mas fazia muito tempo, tanto tempo, que não o perdia de vista, que aquele sentimento de agonia parecia doer cada vez mais. Correu pela calçada ultrapassando três casas facilmente, ignorando quando os pés descalços batiam em alguma coisa incômoda ou pontiaguda no chão. Virou à esquerda e cruzou um gramado de uma casa alheia, pulando a cerca baixa que costumava enfeitar a maioria das propriedades ali, logo, sua casa tinha sumido de vista, e o sentimento de desespero ficava mais forte, o coração mais apertado, quando sabia que finalmente estava perto de alcançá-lo.

Ele não tinha ido longe o suficiente, e depois do segundo jardim ultrapassado sem autorização dos donos que dormiam tranquilamente em suas casas grandes, ela finalmente conseguiu ouvir a voz dele, vindo de fora de seu corpo, invadindo seus ouvidos num choro infantil e desamparado, o que apenas a deixava ainda mais agonizante. Como tinha sido capaz de deixá-lo sozinho uma vez sequer? Precisava protegê-lo, acima de tudo… nada era mais importante em sua vida do que a presença e o bem-estar dele.

Ao alcançar o fim da rua, seus pés quase tropeçaram no gramado que ocupava os fundos de uma das casas do bairro ainda desocupadas, com a placa de vende-se na frente. A iluminação nos quintais das casas era ainda mais escassa, e pouca luz das ruas principais alcançavam aqueles gramados durante a noite. Quando seus olhos pousaram sobre o garotinho sentado na grama, possivelmente com não mais de seis anos de idade, os cabelos curtos e negros assanhados, o rosto avermelhado e cheio de rastros de lágrimas… ela finalmente se sentiu aliviada.

– Mamãe…! – ele apoiou as mãos na grama manchada e as lágrimas continuaram a escorrer dos olhos grandes e claros. – Nikki… não gosta… de ficar… sozinho…!

– Desculpe, querido, me desculpe! – ela praticamente correu na direção dele, ignorando o líquido que manchava a grama e posteriormente as solas de seus pés. Abaixou-se ao lado da criança para estender os braços e pegá-lo no colo. O pijama azul dele estava também manchado pelo mesmo líquido viscoso que se espalhava ao seu redor. – Mamãe estava tão cansada que não o viu saindo. Prometo que não vai acontecer de novo, certo?

Ele envolveu os pequenos braços em volta do pescoço da mulher, enterrando a cabeça no ombro dela, movendo-a levemente para cima e para baixo, apenas para confirmar o que ela tinha dito.

– Bom menino… – ela o abraçou com força, passando a mão sobre a cabeça dele, afagando-lhe os cabelos curtos e lisos. – Agora vamos para casa, mamãe vai tirar essa roupa suja, lhe dar um bom banho, e colocá-lo para dormir, certo?

– Nikki pode dormir com a mamãe hoje? – o garotinho continuou agarrado nos braços da mulher, parecendo mais confortável e em nada interessado nos seus arredores.

– É claro, querido. – a mulher concordou prontamente. – A mamãe não vai deixá-lo mais sozinho, não se preocupe.

– Tá… – a palavra de concordância veio num tom suave, quase sonolento, e ela sabia que ele adormeceria mesmo antes de chegarem em casa.

Olhou ao redor apenas para confirmar que não era apenas o líquido viscoso que enfeitava o jardim daquela casa em particular, mas em alguns cantos separados, conseguia ver os restos de um corpo humano adulto desmembrado, as mãos num canto, as pernas noutro, a cabeça de cabelos curtos virada para um canteiro de flores silvestres, o tronco dividido em dois, cada parte num canto diferente do jardim. Os olhos castanhos passaram naturalmente por toda o cenário, e toda aquela agonia, aquele desespero, aquela urgência que ela sentia… não ressurgiram como resposta à visão quase macabra. A única coisa capaz de levar seus sentimentos aos extremos era a presença do garoto, e qualquer coisa ao redor dele em nada lhe interessava: contanto que ele estivesse bem, e ao seu lado.

Andou calmamente para fora do jardim, e antes de pisar na calçada, esfregou as solas dos pés na grama limpa, para tirar o máximo de sangue que podia, e caminhar sem ter que deixar um rastro óbvio de para onde estava indo. Já fazia mais de um ano que cuidava de Nikki, e quanto mais tempo se passava, mais tinha certeza de que simplesmente não podia tirar os olhos dele, independente do que ele fizesse, do que acontecia ao seu redor, eles sempre voltavam para a mesma casa, eles sempre tinham o mesmo café da manhã, a mesma rotina… era como se sua vida fosse dele.

Quando alcançou sua casa novamente no fim da rua, estava mais tranquila, notando que o garotinho tinha adormecido facilmente nos seus braços. O silêncio continuava no bairro, as luzes continuavam a iluminar vagamente as residências quietas. Ela subiu para o quarto, colocando o garotinho na cama sem se importar que sua roupa sujasse os lençóis claros. O relógio de cabeceira marcava apenas 2h23.

O volume da televisão estava baixo, mas Jann não teve qualquer dificuldade de ouvir e entender perfeitamente as palavras em alemão que deixavam os lábios da jornalista no noticiário matinal. As imagens de um acidente trágico acontecido nos trilhos da estação de trem de Baden-Baden eram supostamente fortes demais para serem exibidas naquele horário em TV aberta. O principal questionamento do ocorrido, que não tivera qualquer testemunha, era como três jovens adolescentes tinham sido atingidos e estraçalhados pelo trem a ponto de causar tamanho estrago. A primeira hipótese apresentada era de uma briga que os levara ao lugar errado, na hora errada… a segunda, mais interessante aos ouvidos de Jann, era de suicídio coletivo. Mas ele sabia, depois de tantos anos trabalhando para agências de inteligência governamentais, que as investigações e a perícia forense iriam determinar a verdadeira causa do acidente, desse modo, logo uma coisa seria descoberta: os danos causados pelo impacto do trem não correspondiam aos danos dos corpos, e certamente o momento da colisão e seus respectivos estragos tinham sido causados post-mortem. Se aquilo seria efetivamente divulgado na mídia, não era algo que realmente lhe interessava… interessava que aquele acidente incomum chegaria logo – ou melhor, já tinha chegado – a ouvidos muito mais precisos e interessados do que a audiência dos jornais locais.

Continuou a ouvir o relato vagamente enquanto a imagem mudava para os pais de um dos adolescentes, chorando e lamentando pela perda do filho que julgavam tão bom e querido. A reportagem não lhe afetou minimamente possível. A TV apenas foi desligada quando notou que Nene se revirou na cama, prestes a despertar. Virou o rosto para a criança, que bocejou longamente e esticou os pequenos braços, levando as mãos aos olhos cansados, esfregando-os insistentemente antes de abri-los.

– Pronta para outra viagem de trem? – o questionamento dele foi o suficiente para que ela virasse em sua direção, a expressão ainda de sonolência.

– Vamos andar de trem de novo? – ela bocejou. – Pra onde vamos, papai? Nene gosta de trens…

– Dessa vez, vamos para uma cidade bem grande.

– Mesmo? – o sono pareceu começar a se esvair com a possibilidade. – Vamos poder passear?!

Jann apenas acenou positivamente, e o sorriso logo iluminou o rosto da menina.

– E vai ter muitas crianças pra Nene brincar?! – ela quase saltou de alegria.

– Eu creio que sim. – ele concordou novamente, e o sorriso se alargou.

– Eba!! Vai ser divertido!!

Ele não respondeu à afirmação dela, apenas deixou que um sorriso quase imperceptível surgisse no canto de seus lábios ao observá-la se levantar da cama, completamente animada, vestida no pijama de bolinhas com mangas dobradas e a barra da calça arrastando no chão. Ela se espreguiçou longamente, e praticamente correu na direção do banheiro, espertando qualquer resquício de sono que ainda tinha no corpo.

Jann desviou o olhar da porta do banheiro, surpreendendo-se cada vez mais consigo mesmo, como suas reações se tornavam frequentes diante dos atos mais inocentes da garota. Enquanto ela cantarolava algo no banheiro, ele se levantou e abriu a cortina do quarto levemente, observando o dia amanhecer frio, imaginando quando eles iriam se mostrar. Fazia mais de um mês desde o acontecimento de Al Basrah… era o tempo equivalente ao que ele esperava ter sido surpreendido por equipes táticas altamente treinadas. E a reação deles estava demorando demais para surgir. Por mais que estivesse acostumado a seguir por outros caminhos, se tornar invisível… ele não era ingênuo a ponto de achar que eles não tinham se esbarrado até então por pura sorte. Eles calculavam cada passo, e o fato de não terem aparecido até então… era porque eles queriam daquele jeito.

Os pensamentos se voltaram para a garotinha que saiu do banheiro, os cabelos lisos bagunçados, vestindo um par de calças e uma camisa branca que parecia grande demais no corpo magro. Não tinha como tirar da mente que ela era a única razão óbvia para a missão de Al Basrah, e muito provavelmente o principal motivo deles não terem se aproximado o bastante… estavam sendo cautelosos, e era óbvio o porque não se aproximarem de Nene. Mas até onde eles sabiam sobre ela? Aquela era a pergunta que o movia constantemente desde a fuga do Oriente Médio, queria saber o que exatamente os tinha levado àquela cidade em primeiro lugar… o que eles sabiam para ter chegado tão precisamente até ela, e como, acima de tudo, ele tinha se ligado à ela.

– Nene está pronta para viajar de trem de novo! – ela anunciou, agora já vestia um casaco que quase lhe alcançava os joelhos, aberto, um par de luvas de lã rosa, e carregava a pequena mochila rosa num dos ombros.

– Feche o casaco, ou vai ficar gripada. – disse Jann, virando-se para se afastar das cortinas e pegar a sua mochila, quase do tamanho da menina, sem nem precisar conferir o que estava lá dentro, tirando apenas o dinheiro e o passaporte necessários para a aquisição dos bilhetes de trem.

Ela apenas concordou com um aceno de cabeça e levou as mãos vestidas nas luvas para fechar os botões do casaco, tendo certa dificuldade em conseguir executar a tarefa simples por causa do tecido nos dedos. Aproximou-se dela, abaixando-se com a mochila ainda jogada sobre um ombro e abotoando o resto do casaco, recebendo um grande sorriso em agradecimento. Levantou-se, passando a mão no topo da cabeça dela e em seguida tendo-a segurada pela da menina para seguirem até a estação de trem.

Mais uma vez, o olhar atento buscava qualquer sinal de pessoa suspeita, de informantes ou agentes disfarçados que pudessem estar perseguindo-os. Mas como sempre, não havia o menor rastro. Por mais que mudassem as identidades na passagem de cidades, o estereótipo dos dois não os deixaria longe dos olhares de interesse das organizações de inteligência. De qualquer modo, fugir deles era a menor de suas preocupações. Embarcou no trem que seguia até Stuttgart, e de lá estaria ao menos um passo mais perto de descobrir a verdade sobre Nene.

A viagem não foi demorada, menos de quarenta minutos com apenas uma parada até uma das cidades mais conhecidas da Alemanha. Nene parecia estar muito mais disposta ao descobrir que só andariam em dois trens até chegar no lugar desejado. Passou o percurso inteiro lhe chamando repetidamente para mostrar alguma coisa da paisagem que logo sumia diante da velocidade do meio de transporte. Era exatamente uma criança conhecendo um lugar diferente. Sorriu de novo, vendo a empolgação dela com a nova cidade. Bom, ainda havia um problema a ser resolvido quando chegasse à Stuttgart: podia estar fugindo com louvor dos avanços da inteligência internacional, mas quando ele mesmo ia procurá-la, estar com a garota seria um problema.
Estava tão concentrado nos próprios pensamentos e nas alternativas para resolver aquele problema que não percebeu quando o trem anunciou a parada na estação principal de Stuttgart. Alertou-se apenas quando Nene balançou sua perna com bastante força, já tinha até descido da cadeira do trem, puxando-lhe a roupa.

– Papai! Tem um monte de gente descendo, papai! Não vamos também?

Ele levantou os olhos de Nene para a informação nos letreiros digitais do trem, levantando-se num passo e pegando a menina no colo muito facilmente para então descer na estação pouco antes das portas se fecharem. Virou-se para observar o trem partindo, o movimento na estação principal de Stuttgart muito maior do que nas outras cidades menores em que tinham passado. Colocou Nene no chão, mas a menina parecia tão impressionada com a quantidade de gente que passava ao redor que lhe segurou com firmeza o tecido da calça, sem se afastar um passo sequer.

– Está tudo bem. – disse, colocando a mão na cabeça dela de novo, afagando-lhe os cabelos e então deixando a mão para que ela a segurasse. – Vamos para um lugar menos movimentado.

Ela apenas fez um sinal positivo com a cabeça e segurou sua mão grande com as duas pequenas, andando praticamente colada a ele. Mais pessoas, mais fácil de se esconder e mais difícil de encontrar os verdadeiros motivos de sua preocupação. Os olhos treinados passavam com velocidade entre cada um dos rostos aparentemente desinteressados na plataforma. Saiu pelas escadarias apenas para encontrar uma rua mais movimentada, o dia iluminado fracamente pela luz do sol embora o vento fosse frio. Nene continuava segurando sua mão firmemente e cruzaram algumas ruas para chegar à uma estação de metrô urbano. Além de olhar constantemente para as pessoas que os circulavam, procurando qualquer presença suspeita, se pegava várias vezes olhando para a menina e a expressão tímida diante da cidade grande. Notou estranhamente como estava começando a se preocupar mais com o estado de Nene com o perigo iminente do encontro com os agentes especiais. Colocou-a nos braços quando entraram na estação de metrô, ainda mais movimentada àquela hora da manhã, e seguiram até Stadtpark. Mesmo que o trem metropolitano demorasse apenas uma média de vinte minutos para alcançar o outro bairro da cidade, as paradas eram mais constantes e a quantidade de pessoas era maior, a ponto deles não conseguirem se sentar, e ter que segurar Nene em seus braços, a menina envolvendo-o pelo pescoço com bastante força enquanto os olhos claros fitavam o excesso de pessoas ao redor apenas por cima de seu ombro.

– Não tem meninos do tamanho da Nene, papai. – a menina constatou enquanto ainda estavam no metrô.

– Ainda não. – ele respondeu, calmamente, quando anunciaram então a saída da estação em Stadtpark.

Ele se virou na direção das portas automáticas e desembarcou antes que os próximos passageiros começassem a entrar e encher mais o trem. A estação era diferente da central e menos movimentada. Seguiu ainda com Nene nos braços até a saída da mesma, parando diante de um bairro mais residencial, sem muito movimento de carros e com poucas pessoas em roupas mais casuais andando de um lado a outro com seus animais de estimação ou com crianças nos braços ou em carrinhos de bebês. A menina soltou finalmente seu pescoço, olhando ao redor o local com uma atmosfera mais familiar e menos tumultuada.  A expressão medrosa suavizou e os grandes olhos claros começaram a vasculhar o local, sempre parando em alguma criança.

– Papai, Nene quer descer! – a voz dela lhe chamou a atenção, enquanto estava concentrado em olhar o ambiente ao redor, as pessoas passando sem lhe despertar qualquer alerta em particular.

Um aceno com a cabeça foi o suficiente para concordar com as palavras da criança e deixou-a no chão, segurando-lhe a mão e ainda olhando ao redor, decidindo para onde iria. Nene praticamente puxou-lhe na direção do outro lado da rua, indicando uma área verde por onde várias pessoas começavam a passar.

Jann não perdeu muito mais tempo analisando a área ao redor. Conhecia aquele lugar de alguns anos atrás, embora estivesse mais tranquilo e com um sentimento mais familiar do que antes. Estava acostumado com os pontos mais movimentados das cidades, e ainda estava duvidoso do que poderia fazer para resolver seus assuntos e cuidar de Nene apropriadamente. Seguiu para o parque indicado antes pela garota, ainda olhando ao redor e analisando as suas opções. Quando estavam do outro lado da rua, nas calçadas do parque entre as árvores e gramados bem cuidados, a menina não se demorou a soltar sua mão e começar a praticamente correr pelo local. Manteve os olhos nela por um instante mas depois de conferir o espaço aberto, não achou necessário continuar a observá-la. De algum modo, tinha certeza que ela não sumiria… e mesmo que sumisse, seria capaz de reencontrá-la.

Os olhos desviaram da menina para alguns dos transeuntes do lugar, indo e vindo em passos mais lentos e descontraídos, um ou dois seguindo mais rápido provavelmente para cortar caminho e chegar ao trabalho dentro do horário. Voltou o olhar para Nene e no exato momento, sentiu um dos homens apressados esbarrar fortemente em seu ombro. O homem se virou para se desculpar rapidamente, mas continuou o trajeto ainda de modo acelerado. Jann, por outro lado, seguiu até um dos bancos vagos do lugar e deixou a bolsa de lado, pegando um aparelho celular recém-adquirido e começando a digitar algumas informações no sistema de GPS, procurando as coordenadas que precisava no mapa por satélite.

Em meros cinco minutos tinha decorado o trajeto que precisava ser feito, os transportes que precisava pegar e todos os pontos de referência oferecidos pelo sistema atualizado do celular. Jogou o aparelho no chão e pisou com certa força na tela que facilmente se despedaçou, pegando os restos do objeto para jogar numa das latas de lixo do parque, passando a alça larga da bolsa preta sobre o ombro de novo e se virando para encontrar Nene.

Os olhos imediatamente pousaram sobre a menina que estava mais adiante brincando com outras duas crianças: um garoto que devia ter quase a sua idade, os cabelos claros e olhos castanhos, e uma menina mais nova, com as mesmas características do menino, segurando a mão do jovem que muito provavelmente era seu irmão. Mesmo com a animação de Nene, os outros dois pareciam mais tímidos e até amedrontados com a empolgação da loira. Seguiu até os três, mas parou a cinco passos do trio de crianças quando notou a aproximação de outro homem. Ele tinha os mesmos traços das duas crianças, bem vestido, sorriso amigável e roupas casuais bem sóbrias. Chegou perto dos três abaixando-se e apoiando um joelho no chão, uma das mãos indo até o ombro do garoto, lançando aquele sorriso característico para Nene.

Jann cobriu a distância entre eles a passos largos e lentos. Os olhos permaneceram fixos no adulto do grupo, sem precisar sequer checar duas vezes as expressões cautelosas das crianças que o acompanhavam. A mão seguiu automaticamente na direção do cós da calça e seus olhos quase funcionavam com uma mira. Teria executado a missão do modo mais natural possível, mas os passos pararam e o movimento de puxar a arma da cintura foi detido quando ouviu a voz de Nene se virando em sua direção.

– Papai! Olha só, papai! Eu tenho dois amigos! – ela puxou o tecido de sua calça com uma das mãos, enquanto a outra indicava o casal de crianças à sua frente. No mesmo instante o homem se levantou, o sorriso ainda no rosto. – Essa é a Anina e esse é o Berg.

Toda a sua ação automática foi detida com o som da voz de Nene. Mal prestou atenção na apresentação das crianças, a vontade de puxar sua arma e disparar um único tiro à queima-roupa no meio da testa daquele homem ainda crescendo dentro de si. Em outras situações, ele já estaria duro no chão, e não importava quantos filhos estivessem vendo sua morte – não era de sua natureza ter pena sequer da reação das crianças.

Aquela vontade de matar pessoas que vestiam a mesma máscara que seus inimigos era entretanto algo recente. Ele matava quem lhe mandavam matar… fossem pessoas de fachada ou não. Desde Al Basrah, na companhia de Nene, tinha dado mais valor a uma descoberta que sabia desde sua adolescência: pessoas eram repugnantes. E muitas vezes eram bem piores longe de um campo de batalha do que dentro deles. Irônico que algumas das pessoas mais honradas que encontrara estavam do outro lado do cano de sua arma.

– É sua filha? É uma menina muito bonita. Muito prazer, me chamo Frank. Esses são meus filhos. – a voz do homem apenas adicionava à sua vontade de ver o sangue escorrendo de um buraco de bala na testa dele. – Parece que logo viraram amigos.

– Vamos indo, Anya. – Jann não amenizou a expressão de séria, colocando uma das mãos nas costas da garota para incentivá-la a seguir com ele.

– Mas já, papai? Ne–- Anya ainda quer brincar com os amiguinhos novos. – ela segurou sua mão, uma expressão esperançosa surgindo nos olhos grandes. – Não podemos ficar mais?

– Não. Preciso resolver um assunto de trabalho. – a resposta de Jann foi categórica.

– Anya não pode ficar com os amiguinhos? – a expressão dela era praticamente suplicante, mas ao olhar para o pequeno rosto, sentiu um calafrio percorrer a espinha ao notar algo extremamente destoante na expressão dela: o olhar grande e vazio.

– Se não se importar, posso cuidar da menina. Deixe que ela fique e se divirta. – a proposta veio do homem cujo nome Jann deixou guardado apenas no fundo de sua memória seletiva. O rosto dele era que importava para propósitos futuros de jogá-lo numa vala. E o rosto com aquele mesmo sorriso falso. – Estou esperando minha mulher chegar, de qualquer jeito, moro do outro lado da rua. Se quiser, posso passar meu telefone. Sei que deve ser estranho deixar sua filha com um desconhecido, mas pode ver que eu tenho bastante experiência.

Ele indicou os próprios filhos ainda silenciosos, a menininha segurando a mão do irmão mais velho como se fossem parte de um só. Claro que ninguém em sã consciência deixaria qualquer criança com um homem positivamente perigoso. Jann seria um dos poucos que não se importaria… era para ignorar aquele tipo de sentimento que tinha treinado. Mas com Nene, o sentimento era totalmente diferente. Por um lado, a proteção e o cuidado excessivos que desconhecia completamente, desde que nascera. Por outro, a capacidade de entender, nos olhos infantis, que ela queria ficar. E sozinha.

Naqueles olhos infantis ele sentiu mais perigo do que no olhar psicopata do homem à sua frente. Mesmo assim, não era algo capaz de lhe causar medo, senão expectativa de qual seria o resultado que encontraria ao voltar para encontrar a menina horas depois.

– Quer mesmo ficar?

A menina sorriu contente, balançando a cabeça num aceno positivo bem enfático enquanto apertava a mão dele com as duas pequenas em excitação.

– Volto para buscá-la antes do anoitecer.

– Tá bom! – ela balançou a cabeça de novo e seguiu na direção dos irmãos, pegando uma mão de cada e levando-os na direção de uns brinquedos no parque mais adiante.

– Não se preocupe, ficarei de olho nela.

Jann finalmente levantou o olhar para o homem e a expressão de desagrado deu lugar a um sorriso levemente sarcástico, no canto dos lábios.

– Não estou preocupado.

Não falou mais nada ou esperou qualquer resposta. Virou-se e seguiu na direção da saída do parque, na certeza de que poderia fazer seu trabalho totalmente tranquilo e discreto, e de que voltaria e reencontraria Nene tão bem quanto a tinha deixado. Era uma certeza estranha, já que em seus anos de guerra, a única certeza que tinha ao acordar todos os dias era a de que poderia morrer.

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Local: home
Modo: annoyed annoyed
Música: Control - Poe

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