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Children of Death: Cap. III [+18] - Contos Perdidos
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Children of Death: Cap. III [+18]


III. O Dia Mais Claro [PARTE II]

Logo o parque tinha saído de seu campo de visão e estava pegando um trem para um bairro mais ao centro de Stuttgart. Menos de vinte minutos, apenas algumas breves paradas e ouviu o anúncio da estação de Königstraße, onde deveria desembarcar. Ao descer do trem, todos os movimentos já estavam previamente calculados.

Os passos até o banheiro da estação foram praticamente contados atrás de um homem que avistara no trem, com o seu mesmo estereótipo físico. Fechou a porta atrás de si para notar que havia além do homem que tinha entrado antes de si, vestido formalmente, havia o outro com vestes mais informais. O de casaco logo passou por ele e deixou o banheiro, apressado, o de terno estava se dirigindo até a pia e mal lhe lançou um olhar de interesse. Dois passos foram o suficiente para acertá-lo com uma sequência de golpes no rosto, duas vezes, e no estômago, impedindo que ele caísse desacordado no chão do ambiente público. Arrastou-o com extrema facilidade até um dos box e tirou as vestes, deixando-o apenas com a roupa de baixo sentado num dos vasos sanitários. Vestiu ele mesmo o terno, saindo do box e colocando a mochila grande sobre a pia, tirando de lá uma maleta preta pesada, escondida entre roupas, dinheiro e documentos. Não conferiu o conteúdo da maleta preta que não poderia parecer mais tradicional. Saiu do banheiro com os dois, olhando ao redor até encontrar os armários da estação, procurando um vazio para deixar a mochila maior, trancando-o e saindo de lá apenas com a nova vestimenta e a maleta preta de trabalho.

Ao sair da estação, deparou-se com um ambiente levemente familiar, o movimento mais intenso de pessoas em seus uniformes de trabalho, roupas sociais, falando constantemente em seus aparelhos celulares para resolver seus problemas pessoais e profissionais. Fazia amis de cinco anos que não colocava os pés em Stuttgart, mas os caminhos em sua memória treinada ainda eram os mesmos.

Nas horas que se seguiram, ele sequer teve necessidade de pensar em Nene. Estava concentrado em observar a movimentação ao redor e encontrar seus objetos de interesse. Parou na beira da calçada para observar alguns prédios empresariais de destaque do outro lado da rua. A multidão de transeuntes era mais que necessária para ajudá-lo a se misturar.

Deu meia-volta, observando um outro prédio e entrando no mesmo, passando sem muita dificuldade pelo saguão de entrada, encontrando com facilidade as câmeras de vigilância e se importando apenas em dar as costas a ela. Não adiantaria se preocupar com a vigilância se tinha certeza de que as pessoas que o perseguiam conseguiriam encontrá-lo com facilidade até mesmo no meio do deserto. Seguiu até o elevador e subiu até o último andar, mudando de elevador três vezes mesmo que os andares fossem poucos. Alcançou a cobertura por uma escada de acesso com porta anti-fogo, deixando uma pedra no caminho para que a porta não se fechasse e pudesse ser aberta só por dentro.

A cobertura estava tão vazia quanto queria. Seguiu prontamente até a beira do prédio, sem qualquer proteção além da batente que alcançava a altura de sua cintura, colocando a maleta preta no chão e abrindo-a para montar um barret M82A1 com extrema naturalidade e calma, adicionando uma mira telescópica no encaixe superior e abrindo o suporte em V para apoiar sobre a balaustrada, mirando para o prédio exatamente do outro lado da rua.

Procurou o que lhe interessava pela mira e através das janelas de vidro do prédio comercial e em menos de três minutos achou o alvo de interesse. Ainda assim, ficou naquela mesma posição pelas próximas três horas, sem desviar o olhar da mira telescópica, sem realmente se mover ou parecer incomodado com a posição de pé ou a vista cansada, observando cada movimento dentro do prédio, cada relação entre funcionários, cada conversa que não podia ouvir e cada rosto que precisava rapidamente memorizar. O relógio marcava exatamente meio-dia quando ele finalmente desarmou o fuzil de longo alcance e guardou de volta à maleta. Com uma mão no bolso da calça social risca de giz, saiu da cobertura, descendo os andares do prédio e apenas acenando rapidamente para pessoas desconhecidas que devolviam o cumprimento por questão de educação. Evitou as câmeras que já encontrara no caminho de subida até a cobertura, e em menos de dez minutos, tinha saído do prédio.

Seu novo caminho o levou a um café do outro lado da rua, vizinho ao prédio que estivera observando. Entrou, pediu um expresso e observou ao redor, notando alguns rostos familiares se reunirem ali depois de serem liberados para o horário de trabalho. Levantou-se da mesa em menos de cinco minutos, o expresso intocado, deixando uma única nota de euro para pagar pelo pedido e seguindo até o banheiro masculino então vazio por breves cinco minutos. Saiu de lá com as mãos lavadas, e sem carregar qualquer objeto a mais, além daquele simples cartão que foi facilmente furtado do bolso de um dos homens de terno que conversava animadamente com uma turma de colegas de trabalho.

Do momento que colocou o pé fora daquele simples café para entrar no prédio que estivera observando nas últimas três horas, não precisou olhar para o relógio de pulso. Era como se os ponteiros estivessem precisamente em sua mente e o som do tic-tac fosse extremamente alto em seus ouvidos. Não havia o barulho das ruas, não havia as vozes das pessoas ao seu redor ou dos aparatos tecnológicos que cercavam o lugar. Entrou no prédio sem muita dificuldade, usando o cartão roubado, passando por um detector de metais tranquilamente, seu rosto diferente sequer sendo notado pelos dois guardas que estavam no saguão de entrada. Em sua mente, havia apenas um caminho traçado, uma sala na qual chegar e uma pessoa que abordar… quem se colocasse entre ele e aquele objetivo não teria tanta sorte de estar vivo. Como ele previra, chegar até o elevador e apertar o botão do último andar, inserindo um código de acesso, foi fácil. Quando as portas do elevador se abriram, foi que as coisas se tornaram menos fáceis.

Tic.

– Quem é o senhor? Não pode entrar aqui…

Tac.

O homem grande de terno mal se prostrou diante de si, tentando impedi-lo de sair do elevador, e ele estendeu o braço com agilidade e força, segurando o rosto do seu inimigo na altura da boca, apertando o rosto e a mandíbula, puxando-o com força contra a parede de metal das portas do elevador que estavam abertas. O homem ficou desnorteado com a pancada, mas não foi o suficiente para desacordá-lo, pelo contrário, foi o suficiente para fazê-lo reagir. Levou uma das mãos ao cós da calça, levantando o terno e pronto a pegar uma arma, muito provavelmente uma automática 9mm, mas não teve muito efeito, quando Jann estendeu o outro braço e segurou o pulso dele, dando um giro de 180° em volta do agressor e torcendo-lhe o braço junto, fazendo com que o corpo grande se curvasse para frente. Antes que ele pudesse raciocinar o suficiente para pedir ajuda, Jann continuou torcendo-lhe a mão, imobilizando-o, e com o braço livre, puxou a cabeça dele para cima, envolvendo-a com o antebraço e impondo toda a força e habilidade que tinha para puxá-la de uma vez… como se puxa um bandaid. Ouviu o estalar do pescoço e logo em seguida o apito irritante do elevador por estar com algo lhe interditando o fechamento das portas. O primeiro corpo estava caído exatamente naquele espaço em que as portas de metal deveriam se fechar.

Tic-tac. O som em seus ouvidos se tornava mais alto e mais urgente, e sabia que dali em diante as coisas seriam mais difíceis do que um simples guarda. Eles o estariam esperando depois daquele simples episódio, e por isso tinha pouquíssimo tempo para alcançar o final do corredor, entrar num segundo corredor e alcançar a sala desejada. Mal teve tempo de sair do pequeno corredor do elevador, o segundo empecilho se colocou diante de si. “Dois”, contou mentalmente, enquanto o homem avançava para ele com golpes bem armados para lhe acertar o rosto e o tórax, em pontos mais sensíveis. Desviou o primeiro soco com o antebraço e os pés o levaram para a direita, onde um gancho inimigo mirou suas costelas, sendo impedido pelo seu braço que descia com força contra o golpe. O braço que defendera o primeiro soco segurou o do oponente apenas para puxá-lo em sua direção, levantando o outro braço numa cotovelada que foi logo defendida pela mão livre dele. O homem afastou-se um passo, tomando distância para se curvar para trás e dar um chute lateral. A defesa de Jann não foi convencional; tirou o corpo da mira do chute e sua mão direita se fechou em punho, acertando exatamente a canela alheia com um soco, fazendo a perna dele voltar num giro de quase 45°. O homem deu um passo para trás, o rosto contorcendo-se com a dor do golpe inesperado, mas não se abalou. Como pretendia de início, avançou para eliminar a ameaça, e dessa vez, com uma faca em mãos, mirou o peito de Jann. Foi fácil para o ex-agente se desviar do golpe, impulsionando o corpo para frente, entrando no espaço de contato do oponente. Levantou o braço esquerdo para afastar o dele, deixando a defesa aberta para receber um soco na altura do peito, mas insuficiente para deter seus próximos movimentos: segurou o pulso que estava armado, sentiu a pancada nas costelas enquanto a mão direita novamente se fechava num soco para acertar o bíceps do oponente, com tanta força que o osso do braço parecia ter se quebrado. Ele hesitou, e Jann ao menos se afastou ou soltou o braço alheio, também não saiu de sua posição de ataque, com o murro desferido no braço dele, apenas dobrou completamente o próprio braço e daquela vez o cotovelo acertou em cheio o queixo do homem, de baixo pra cima, jogando-o para trás com o impacto.

A faca caiu da mão dele provocando um tintilar alto no chão de porcelanato daquele andar. O tempo de Jann se abaixar para pegar a faca alheia foi o mesmo tempo do homem se levantar para revidar, mas foi insuficiente. Um único movimento com o braço e a lâmina tinha cortado precisamente a jugular do outro, espirrando sangue pelo corredor e fazendo-o cair pela segunda vez, o corpo tendo alguns espasmos enquanto tentava desesperadamente puxar ar por uma via entupida de sangue.

Deixou que a faca caísse exatamente em cima do corpo do homem, e ele teve sorte da ponta não fincar em sua pele. A morte veio em alguns minutos, o tempo em que Jann andava pelo corredor, o sangue alheio grudando na sola de seu sapato social improvisado, enquanto ele arrumava o terno um pouco amarrotado por conta da segunda disputa. Parou a um passo de virar no corredor, observando os botões do punho de sua camisa social interna. Tic-tac. “Três, quatro”.

Um passo para frente, saindo da proteção da parede, e precisou curvar o corpo para trás, para evitar um soco que viera quase desavisado de um oponente escondido atrás da parede. Aproveitou o corpo jogado para trás para deixar que o mesmo caísse, a perna dobrando e o braço esticando na direção do chão. O apoio foi suficiente para estender a perna esquerda direto para o alto, à sua frente, acertando o segundo oponente que aparecia além do corredor para tentar lhe atingir. A sola do sapato manchada de sangue encontrou a mandíbula alheia e ele cambaleou para trás. O primeiro que tinha surgido viu logo a oportunidade para lhe acertar um chute na altura das costelas, mas o golpe foi detido pelo braço livre de Jann, batendo com a palma da mão na canela alheia, fazendo-a retornar ao chão com certo peso. Virou o corpo para o chão, apenas colocando força no braço para se levantar, o movimento foi preciso o suficiente para se desviar de mais um soco do primeiro oponente e se colocar de frente para o segundo, já de volta ao seu estado normal depois do chute no queixo. Defendeu o soco direto dele e lhe acertou um gancho com precisão abaixo das últimas costelas, segurando a roupa dele para virá-lo na direção do outro e usá-lo de escudo por um instante. O outro não pareceu se importar em ter o parceiro entre ele e a sua presa, do cós da calça, puxou uma arma com silenciador, e os tiros acertaram em cheio o parceiro que servira de escudo para Jann. Com uma arma, as coisas precisavam ser mais rápidas. Um já estava morto em suas mãos, só precisava se livrar do outro com mais velocidade. Tic-tac, tic-tac… “Estou perdendo tempo”, reclamou mentalmente para o som em seus ouvidos. Jogou o corpo de lado, e daquela vez o passo foi mais ágil, os tiros acertaram a janela à prova de balas, a parede, o chão, mas ele só precisou de um passo rápido para alcançar o outro dentro de seu próprio campo de alcance que o homem se surpreendeu com os rostos a apenas cinco centímetros de distância. O braço ainda estava estirado apontando para sabe-se-lá qual alvo, as mãos de Jann foram ainda mais rápidas em envolvê-lo pela curva do pescoço e segurar-lhe o braço, puxando-o com brutalidade contra seu joelho, o nariz dele quebrando rapidamente com o contato. A arma caiu e fez mais um baque surdo ecoar pelo corredor silencioso. Pegou a mesma e atirou na cabeça do homem, uma vez. Suficiente.

Tic-tac. “Cinco, seis…” ele virou para o lado levantando a arma ao mesmo tempo. Dois tiros foram necessários, e dois homens caíram quase simultaneamente, o buraco de bala precisamente no meio da testa de cada um deles.

Jogou a arma de lado, mais uma vez arrumando o terno e começando a andar a passos mais rápidos. As marcas de sangue ficavam no chão à medida que caminhava e iam sumindo ao longo do caminho. Virou à direita e não havia mais ninguém com quem se preocupar. Olhou diretamente para a porta de madeira da sala que estivera observando e não pensou sequer em hesitar. Três passos e meio até alcançá-la, uma mão estendida para o trinco, destravando-a e abrindo-a para saber o que encontraria do outro lado. A sala estava totalmente vazia de seu ponto de vista: o gabinete de vidro elegante com alguns papéis devidamente organizados sobre a mesa, uma poltrona de couro atrás do mesmo, janelas panorâmicas blindadas, duas poltronas de menor importância diante da mesa, um conjunto de sofás e uns quadros modernistas enfeitando as paredes brancas. O chão estava coberto inteiramente por um carpete vermelho. Convenientemente vermelho.

Prendeu a respiração, e o som em seu ouvido silenciou. Deu um passo para frente para que a porta viesse de vez em sua direção, já esperando por aquele movimento, entrou na sala como num pulo de gato, e o homem que devia estar sentado na cadeira de couro estava ali, atrás da porta, pronto para atacá-lo.

Não foi como os seis primeiros. O silêncio em seus ouvidos precisava ser absoluto para ouvir o movimento do vento sendo cortado a cada golpe extremamente rápido e preciso que o homem lhe desferia. Dois diretos no rosto, um gancho nas costelas, um chute circular na altura do rosto, todos os golpes numa sequência rápida que só puderam ser defendidos para não ter mais danos implicados ao seu corpo. A oportunidade de segurar a perna que ele lhe chutou foi o bastante para descer o cotovelo com vontade na coxa alheia, mas ele curvou a perna que se apoiava no chão e saltou, dando um giro de modo que a outra perna mirasse a cabeça de Jann de novo. Foi obrigado a soltar a perna dele, e os dois foram ao chão, o primeiro por não ter pernas disponíveis para ficar de pé, Jann por ter que se abaixar e se defender do chute potente. A posição não foi mais vantajosa, como um gato, ele mal precisou tocar os pés no chão de carpete para se levantar em mais uma sequência de golpes bem conhecidos de Jann. Uma sequência de ganchos, uma defesa de um soco direto vindo de Jann, uma tentativa frustrada de agarrar a cabeça do outro e jogá-la contra seu joelho, mas finalmente o homem conseguiu lhe segurar as lapelas do terno e acertar seu queixo com uma cabeçada que o fez dar um passo para trás, sentindo o gosto metálico do sangue em sua boca. As pernas de Jann bateram no sofá no meio da sala e levantou o rosto para ver um gancho novamente na direção de suas costelas. Deixou que o golpe lhe atingisse, e abraçou o braço dele por fora, forçando a junta do cotovelo a dobrar para o lado oposto, defendendo outro soco do homem e devolvendo a cabeçada. Ainda segurava o braço dele com firmeza, forçando cada vez mais a articulação, até segurar na conveniente gravata e puxá-lo de novo para si, o joelho subindo para acertar com precisão o baixo ventre do oponente, fazendo-o cuspir saliva no carpete impecável. Aproveitou o movimento dele para frente e levantou uma das pernas, descendo um chute com força na direção da parte de trás do joelho, fazendo-o cair de vez e segurando ainda o braço dele, forçando mais a articulação.

– Que tal conversarmos agora com mais calma, Albreicht? Sei que seus reforços estarão aqui em dez minutos. Não precisarei de mais de três. – a voz de Jann estava baixa, mas era perfeitamente audível naquele lugar de silêncio sepulcral. Ainda mantinha o outro imobilizado.

– Eu sabia que viria, Jann. Só estava esperando o dia. – o outro respondeu, o rosto ainda virado para o chão. – Onde está a garota, Jann? Já a matou?

– O que sabe sobre isso? Sobre Al Basrah? – ele ficou tenso por um instante, como se estivesse mirando a arma pela primeira vez para um tiro a queima-roupa numa pessoa que ele sabia que era inocente. Mas aquele homem era de longe inocente, e a tensão se passou em seu corpo simplesmente pela menção de Nene.

– Eu não sei nada…

Ele torceu o braço dele com mais força, a ponto de ouvir alguns estalos leves e a voz contida do outro por conta da dor.

– Resposta errada.

– Eu não sei nada sobre Al Basrah. – a resposta foi a mesma, e Jann estava prestes a torcer mais o braço que estava na chave. – Mas sei sobre a Suécia.

– Suécia?

– Acha que sua menina é a única? Como acha que chegaram lá? Por sorte…? – o tom do outro era de deboche. – Há muito mais por aí, Jann, e eles sabem disso. Estão procurando, estão pesquisando, tentando descobrir com o que estão lidando.

– Tentando descobrir? – o tom de Jann foi totalmente descrente. A resposta mais que óbvia é que eles já sabiam o que Nene era, e por isso a queriam de volta.

– É o que parece, mesmo nos níveis mais baixos das organizações. – respondeu o homem. – Para falar a verdade, eu também estava curioso sobre as crianças. Mas resolvi não me meter nisso… principalmente depois de Al Basrah. Veja só o que uma garotinha conseguiu fazer com um homem como você.

Ele torceu ainda mais o braço do outro, e podia sentir em sua pele que ele estava a ponto de quebrar. Um pouco mais de força, um pouco mais de precisão no movimento…

– Fale sobre a Suécia.

– Tem um relatório. – a voz do homem foi baixa, tentando conter a dor no braço, tentando mover o corpo para não sentir que o membro estava prestes a quebrar. – Sobre um acontecimento na Suécia, ao norte de Kiruna, numa instalação extra-oficial. Está nos arquivos de Helsinki. Foi deixado de lado, é de dez anos atrás, não deve ser difícil consegui-lo, não para você, Jann. Contanto que consiga chegar lá.

– Que relatório?

Red snow. – um risinho de escárnio escapou dos lábios do homem. – Pode imaginar por que, não é? Deve ter sido algo muito parecido com o acontecimento de Al Basrah.

Jann forçou mais o braço do outro, e ele reprimiu mais um grito de dor.

– É o máximo… que vai conseguir de nós. A não ser que esteja disposto a invadir a sede da CIA ou do FBI ou da RAID. – completou o homem. – Boa sorte com isso.

Ele observou o rosto conhecido sob si. Ponderou por dez segundos, e o som do tic-tac voltou a invadir seus ouvidos. Não havia mais nada a ser perguntado, ele já tinha um caminho que seguir dali em diante. Afrouxou um pouco a mão dele, e quando notou o alívio no rosto do homem, fez questão de levantar a perna, segurar o pulso dele, e descê-la sobre a articulação do cotovelo, chutando com tamanha força que a fratura se expôs com facilidade, e o grito dele não pode ser contido. Logo o vermelho do sangue estava se misturando ao vermelho do carpete e a inconsciência causada pela dor atingiu o homem. Aquele não precisava morrer.

Passou por cima do corpo caído dele e alcançou a porta, fechando-a ao passar e arrumando o terno. Andou pelos corredores ainda silenciosos, apenas o som de seus passos ecoando enquanto evitava os corpos no meio do caminho. Chutou o corpo do elevador para o lado para que as portas finalmente fechassem e o bip irritante cessasse. Desceu facilmente no térreo, e quando saiu do elevador, assim como mais duas pessoas que tinham entrado neste ao longo dos andares, notou homens nada discretos subindo pelas escadas e pelos outros elevadores disponíveis, inclusive por aquele pelo qual ele tinha saído.

Olhou para o relógio enquanto passava o cartão roubado pela porta de acesso. Estava na hora de voltar e pegar Nene. Já tinha passado tempo demais longe da criança, e sabia que tinha que estar de volta à companhia da menina na próxima hora. Precisava estar de volta com ela.

Todo o trajeto que tinha feito até ali, fez exatamente ao contrário. A maleta com a arma desmontada estava exatamente onde tinha deixado, a bolsa grande no armário da estação, cuja chave devolveu aos responsáveis. Se livrou das roupas sociais alheias, jogando-as no lixeiro mais próximo e voltou às roupas casuais, com jeans, coturnos, camisa básica, jaqueta e casaco por cima. A bolsa pesada era sua principal companheira e quando pegou o metrô na estação para voltar até Stadtpark, já começava a sentir uma inquietação… como se estivesse atrasado. Não havia mais o som em seus ouvidos, mas havia o palpitar alto do coração. Um som com o qual não estava acostumado desde o seu primeiro assassinato, um som que tinha abandonado na sua primeira missão em um campo de guerra aberto tirando vidas obviamente inocentes. Ansiedade.

O trem fez as paradas esperadas, mas ele não estava prestando atenção no caminho. Logo notícias começariam a rodar a cidade e boatos falariam do que tinha acontecido no último andar daquele prédio em particular. Mas as notícias não seriam anunciadas oficialmente, e só aqueles mais importantes, ligados às agências mais secretas que teriam acesso a todas as informações, que estariam se unindo e continuando a seguir seus passos até encontrar uma abertura. Uma simples abertura. Não sabia o que eles estavam esperando, mas começou a se sentir, por um instante, como uma cobaia. Uma cobaia observada em cada passo, para que pudessem chegar à criança: sabendo ou não o que ela era.

Ele sabia o que Nene era: uma criança que precisava de sua ajuda e de sua presença, mais do que qualquer outra coisa no mundo. E era só aquilo que importava… impressionantemente.

Desceu na estação quando a mesma foi anunciada e cruzou o mesmo parque onde ela tinha brincado mais cedo com duas crianças tímidas e desconhecidas, com um pai definitivamente perigoso, daquilo ele tinha certeza. Não precisou do endereço do homem, nem de lembrar do rosto dele, seus pés o guiaram por um caminho de um modo que ele não sabia como poderia acertar o lugar onde ela estava, mas tinha certeza de que a encontraria. Os passos rápidos e precisos o guiaram além do parque, cruzando a rua para chegar num quarteirão de casas bem arrumadas, com cercas brancas de um metro demarcando o jardim bem cuidado de cada uma das propriedades. Ele andou ao longo da rua, sem observar as casas exatamente, até parar na penúltima delas, perto do fim da rua. Olhou o número na porta de madeira, sem realmente associá-lo, e abriu a pequena cerca branca, um rangido de metal soando na rua pouco movimentada enquanto ele adentrava pelo jardim bem cuidado, de grama cortada e anões de enfeite.

A casa estava num completo silêncio, subiu os pequenos degraus de madeira brancos até a soleira da porta de entrada, notando que a mesma estava aberta. Apenas empurrou de leve com a mão, sem se preocupar com se apresentar ou apertar a campainha. Ia entrar tão silencioso quanto pretendia sair. E já tinha que sair da cidade também, então não tinha muito tempo a perder.

Andou a passos largos pela casa bem organizada, parando de imediato na sala de estar quando os olhos pousaram sobre as duas crianças que vira mais cedo na companhia de Nene. O garoto mais velho estava com uma venda no rosto, a irmã mais nova estava escondida atrás do sofá, tentando esconder o sorriso enquanto ele tentava encontrar alguma coisa. Continuava perguntando à menina se estava perto, e ela continuava a sorrir e cobrir aa boca com as mãos. Nene não estava em nenhum lugar que pudesse ver, mas logo a menininha levantou os olhos para ele e fez um sinal breve, levando o pequeno dedo indicador até os lábios, indicando que ele precisaria fazer silêncio. Ficou parado exatamente onde estava, enquanto o menino começava a esbarrar nas coisas da sala, os braços estendidos para frente na tentativa de encontrar fosse a irmã, fosse Nene.

Não permaneceu na sala por muito tempo. Os garotos pareciam se divertir, e ele tinha prioridade em encontrar Nene… agora, certamente ela estava com o adulto responsável da casa, e mal podia imaginar em que estado a encontraria. Passou direto pela sala de estar e alcançou uma porta aberta, na metade do corredor, sob as escadas que davam para o primeiro andar.

Àquela altura, não havia a menor necessidade de continuar procurando. O que quer que o estivesse guiando, era algo que ele não entendia absolutamente, e naquele momento, não sentia a necessidade de entender. Atravessou o espaço da porta aberta, e começou a descer escadas estreitas para um porão mal iluminado, cuja única luz vinha do fim das escadarias. Os pés fizeram as tábuas da escada rangerem, e quando estendeu a mão para tocar no corrimão, sentiu um líquido de textura viscosa e bem conhecida. A pouca iluminação fez com que ele visse o líquido quase preto em seus dedos, mas o ignorou, descendo até o último degrau e finalmente parando ao pé da escada. Havia mais uma luz incandescente acesa no meio do porão, e exatamente sob a luz, a menina estava sentada, as pernas cruzadas e a expressão calma no rosto. Aquilo foi a primeira coisa que Jann notou, para apenas depois seus olhos focarem nas manchas de sangue que a rodeavam, decorando todo o porão como se alguém tivesse jogado baldes do líquido aleatoriamente pelo cômodo, sujando as paredes, o chão e o teto, ainda com o auxílio de pedaços de carne e de pele espalhados sobre as poças de sangue… alguns restos de roupa, fios de cabelo, órgãos internos.

– Ah, papai já está de volta! – Nene se levantou de imediato, andando até ele quase saltitante, os sapatos pequenos pisando nas poças de sangue sem muita preocupação. Havia algumas manchas na roupa dela e no rosto alvo da menina, mas logo ela lhe alcançou, os olhos grandes vidrados nos de Jann, enquanto lhe segurava o tecido da calça.

Jann desceu a mão até o topo da cabeça dela, tentando não prestar atenção no cenário macabro ao seu redor. Era o tipo de cenário com o qual já estava acostumado, embora os danos causados nos lugares que conhecia fossem feitos por tiros de armas com calibres capazes de explodir uma cabeça em mil pedaços.

– Nene está brincando de esconder com Anina e Berg! Eles não conseguiram encontrar Nene ainda! Nene é muito boa em brincar de esconder, não é?! – ela falou, o tom animado, embora o olhar fosse aquele mesmo frio e distante que ele vira sobre os trilhos da estação em Baden-Baden.

– Sim, a Nene é muito boa. – disse ele, sem conseguir desviar o olhar da menina, quase como se estivesse hipnotizado.

– Papai terminou o trabalho?

– Terminei. Vamos viajar de novo. – respondeu, ainda com a mão no topo da cabeça dela. A garota ainda não tinha piscado.

– O papai da Anina e do Berg não trabalha como o meu papai. – o sorriso infantil se tornou um pouco mais largo. – Mas ele não era um homem bonzinho, mesmo que ele quisesse brincar com a Nene.

– Não, ele não era. – daquela vez, diferente da tentativa falha no acidente nos trilhos de trem, ele fez questão de confirmar o comentário da menina.

– Mas Nene já deu um jeito! – ela sorriu mais largamente e acabou fechando os olhos para expressar melhor a animação. Jann conseguiu desviar o olhar dela para o cenário lá embaixo, e tirou a mão do topo da cabeça dela.

– Boa menina. – a resposta dele foi automática, e a criança levantou as duas pequenas mãos para segurar a dele.

– Posso terminar de brincar de esconder com a Anina e o Berg, papai?

– Não, nós temos que partir. – disse, fazendo um aceno breve com a cabeça, indicando as escadarias.

– Ahh… – o semblante dela logo se tornou entristecido, e ela fez um bico, enchendo as bochechas de ar.

– Pode se despedir deles, certo?

– Mesmo?! – a expressão infantil se iluminou com a possibilidade.

Jann apenas fez um aceno positivo com a cabeça, e ela praticamente saltitou onde estava.

– Então eu vou me despedir deles!!! – ela puxou a mão dele com as duas, dando outro salto e então soltou, subindo as escadarias quase correndo. – Vou antes do papai!

Jann levantou o olhar para as escadarias, notando as pegadas manchadas de sangue marcando os degraus desgastados do cômodo antigo. Fitou as costas da criança até que ela saísse de seu campo de visão, e logo ouviu as vozes infantis de empolgação lá em cima, enquanto os três discutiam sobre a brincadeira como se nada tivesse acontecido. Olhou para trás de novo, e seus olhos logo conseguiram identificar alguns dedos das mãos, com cortes precisos, uma parte da perna que ia do tornozelo até o joelho, também cortada dos dois lados com extrema precisão, e finalmente a cabeça, caída a um canto, dividida em duas num corte lateral que deixava apenas um olho arregalado e branco combinando com metade de uma boca escancarada, o cérebro à mostra mergulhado num excesso de sangue.

Pousou a mão de novo sobre o corrimão, para dar as costas à cena e subir as escadas em busca de Nene. Definitivamente, ele entendia muito bem porque as agências que conhecia não tinham se aproximado ainda. E estava começando a imaginar se qualquer pessoa que soubesse da existência da criança teria coragem de fazer aquilo, de se aproximar dele e dela. Cedo ou tarde, teriam que se encontrar de novo… e até lá, a próxima parada era Helsinki.

III. O Dia Mais Claro [FIM]

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Local: home
Modo: mischievous mischievous
Música: Control - Poe

1 comentário / Deixe um comentário
Comments
jhulha From: jhulha Date: January 25th, 2014 03:10 am (UTC) (Link)

*.*

Ver Jann em ação foi legal, detalhou tão bem que me senti uma mosquinha bisbilhotando por cima.

Quero mais.
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