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O Conde e a Sereia: Cap. 3 [+10] - Contos Perdidos
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O Conde e a Sereia: Cap. 3 [+10]
Como eu prometi!! O Conde e a Sereia está de volta também!!! :) themfernandes vai ficar feliz de ver a atualização, imagino, não é?!

Bom, não vou me estender muito que são duas da manhã e eu to mortinha de fome! Semana que vem voltarei com o capítulo três de Children of Death (pra felicidade geral da nação, hahahaha~) e o terceiro e último de Elo de Sangue (já com outra história em vista para substitui-la no journal).

Ah, btw, nota de utilidade pública [???] dhudhsadashuda: mudei os nomes dos capítulos para seguirem padrões, como estou fazendo com as outras histórias. O primeiro mudou de Encontro Inesperado para O Lago e a Garota, e o segundo de Novas Descobertas para A Descoberta e o Nome. Sei que é besta, mas gosto desse tipo de padrão, hahaha~

Espero que gostem do capítulo, comentários, críticas, tudo é bem-vindo! Aproveitem e sintam-se em casa! :)

Até a próxima, pessoas!

Disclaimer: É minha. Cópias não autorizadas estão sujeitas a processo judicial.

O Conde e a Sereia

3. O Resfriado e a Melodia

O frio que sentia espalhar pelo corpo ainda era cortante, a ponto de fazer seus dentes baterem fortemente uns nos outros. Estava enrolado em duas toalhas grossas e um cobertor de pelo, sentado numa das poltronas de seu grande quarto, diante da lareira que tinha sido recentemente acesa por seu mordomo pessoal, mas ainda assim, o frio era a menor das suas preocupações naquele instante. Na cadeira exatamente diante da que estava sentado, a jovem de cabelos quase prateados estava sentada, na verdade, deitada, encolhida dentro de um cobertor mais leve, as pernas – ele olhara inúmeras vezes para conferir aquele detalhe – dobradas sobre o assento largo da cadeira confortável, os olhos fechados e a respiração compassada, mergulhada num sono aparentemente profundo.

Além dos dois, dentro do quarto principal da mansão estava também William, parado ao lado da poltrona de seu mestre, também olhando para a jovem convidada da casa com uma expressão inegavelmente confusa… mesmo com as três presenças e a óbvia consciência dos dois homens no local, o silêncio se instalava no cômodo como se fosse o meio da noite e nenhum dos empregados estivesse de pé para completar quaisquer afazeres.

O silêncio só foi quebrado quando uma porta no fundo do quarto se abriu, e Marie apareceu por ela, andando até o centro do quarto onde o pequeno grupo de pessoas se concentrava.

– Seu banho quente está pronto, senhor. É melhor não se demorar ou vai ficar doente. – disse a governanta, parando ao lado da cadeira em que a garotinha estava deitada.

– Você viu, não viu? – os olhos do conde não desviaram da menina. Mas William entendeu perfeitamente que a pergunta era dirigida a ele. – Eu não estou louco, estou?

– Se loucura fosse uma doença coletiva, meu senhor, eu poderia concordar com suas palavras e todos termos tido alucinações convincentes. – disse William. – Mas ninguém enlouqueceu… menos ainda o senhor, eu garanto.

– Eu a vi… debaixo da água. – Christopher finalmente levantou o olhar para William, os lábios ainda estavam roxos do frio espalhado no corpo. – Eu a trouxe em meus braços até aqui… e eu pude sentir em minhas mãos…

– Nós sabemos, senhor. – Marie interrompeu. – O senhor não está…

– O que está acontecendo? – ele voltou a olhar para a criança adormecida.

– Creio que tenhamos chegado num impasse. – disse William. – A pergunta principal na verdade é: o que faremos, senhor?

– O que quer dizer?

– Com a garota, meu senhor… o que pretende…

– Aleera. – Christopher o interrompeu, antes mesmo que ele terminasse de falar, mantendo o olhar na menina. – O nome dela é Aleera.

– Eu presumo que possamos cancelar as buscas por crianças perdidas desde já. – disse o mordomo. – Garanto que ela não vai se encaixar em nenhum dos perfis possíveis.

– Sim, faça isso. – disse Christopher.

– Meu senhor, poderíamos discutir isso outra hora? O senhor precisa de um banho urgente! – Marie insistiu, mas Christopher parecia ainda hipnotizado pela imagem da menina adormecida.

– E quanto a ela? Deveríamos levá-la a algum lugar, ou–

– Quero que consiga uma certidão para ela. – Christopher simplesmente ignorou o comentário de Marie, finalmente levantando-se da cadeira, as mãos levemente trêmulas, deixando os cobertores e toalhas caírem no chão, ficando de frente para o mordomo. – Todos os documentos que comprovem sua vida até hoje, no lugar que seja, mais desconhecido que seja, o que for necessário.

– O senhor não pretende…

– De hoje em diante, esta jovem está sob os cuidados do Conde de Devonshire. – disse ele, categórico, fazendo com que os criados arregalassem levemente os olhos. – Eu não importo a história que será dita. Rumores já rondam as ruas da cidade sobre a presença dela aqui. Mas é imprescindível que eles parem por onde estão. Não sairá desse quarto o detalhe crucial sobre o que essa criança é. Fui bem claro?

O silêncio se instalou no cômodo, e Marie e William trocaram olhares compreensivos.

– Perfeitamente, meu senhor. – William curvou-se lentamente para concordar com ele.

– Marie, você ficará responsável pela higiene dela, pela troca de roupas, pelas refeições, por qualquer coisa que possa comprometer o que ela é. Ainda não sei como… isso funciona, mas nenhum dos criados pode ter a menor ideia do que se trata. – disse ele, voltando a atenção para a governanta.

– Não precisa se preocupar, senhor, eu farei o possível. – disse Marie. – Mas por favor, entre no banho!

– Eu… não confio em mais ninguém além dos dois, então… eu não tenho a quem recorrer. – ele disse, num tom mais baixo do que pretendia. – Não sei o que aconteceu com essa criança para chegar aqui no estado em que chegou, mas eu terei certeza que ela vai estar devidamente protegida.

Mais uma vez o silêncio tomou conta do local, e Marie deixou um sorriso fraco surgir no rosto, enquanto colocava a mão sobre a cabeça da menina.

– Sabe que pode confiar em nós, meu senhor. – disse a criada, num tom de convicção.

Ele apenas acenou positivamente, e finalmente passou uma mão pelos cabelos, caminhando na direção do banheiro.

– William, ajude-me… – ele disse, depois de três passos quase inconstantes na direção do outro aposento.

– Sim senhor. – o mordomo o seguiu até o banheiro e a porta foi fechada, Marie permaneceu ao lado da cadeira em que a menina tinha adormecido e passou as mãos nos cabelos dela novamente.

– Aleera, não é? É um nome muito bonito… me pergunto o que pode lhe ter acontecido, criança. – ela comentou, num tom de voz suave, como se não quisesse incomodá-la ou acordá-la. – Mas as águas lhe trouxeram para cá, e tenha certeza que meu mestre fará de tudo para protegê-la.

Sorriu para a menina ainda adormecida. Ela parecia simplesmente exausta, mas diferente de Christopher, estava com um rosto levemente corado e aparentemente em boa saúde. Saiu do quarto para buscar algumas peças de roupa para a garota. Ia esperar que ela despertasse para poder lhe trocar, mas a pele dela ainda estava fria e não parecia disposta a acordar tão logo. Vestiu-a enquanto Christopher ainda estava tomando seu tempo no banho quente e ainda assim só ouviu alguns breves murmúrios que indicavam que ela ainda estava inconsciente. Passou uma toalha seca pelos fios claros para tirar o excesso de água e ainda assim ela permaneceu adormecida. Deixou-a deitada na cama principal do quarto, cobrindo o corpo pequeno com dois grossos lençóis. Notou que a noite estava quase chegando e seguiu para fora do quarto, fechando a porta ao passar para conferir o preparo do jantar.

Quando Christopher finalmente deixou o banho, trajava roupas de algodão leve para descansar sobrepostas por um roupão de veludo preto que quase lhe alcançava os calcanhares. Os cabelos negros estavam jogados para trás com uma toalha sobre os fios um pouco úmidos. O rosto tinha um pouco mais de cor e as mãos tinham parado de tremer embora os lábios estivessem um pouco roxos. Voltou os olhos para a cadeira e não encontrou a menina deitada lá. Virou-se para William que ainda o acompanhava, imaginando se ela tinha andado e saído correndo pela mansão ou se Marie tinha a levado para o quarto.

– Senhor… – William chamou-lhe a atenção, fazendo um sinal breve com a cabeça na direção da cama dele. – Não está procurando por isso, está?

Christopher se virou na direção da cama, os olhos pousando na imagem da menina adormecida debaixo de suas cobertas. Arqueou as sobrancelhas com a situação e voltou a atenção para William que parecia fazer um grande esforço para não rir. Andou até o móvel, e Aleera ainda parecia bastante imersa no próprio sonho.

– Como eu vou descansar agora? – levou as mãos até a cintura, fechando os olhos por um instante.

– Eu tenho certeza que vai pensar num jeito, meu senhor. – disse William, cobrindo o espaço entre eles. – Eu vou ver como anda o jantar. Acho melhor servi-lo aqui mesmo?

– Faça isso. – Christopher concordou, rodando a cama até se sentar no outro lado do colchão, onde havia bastante espaço mesmo com a pequena deitada num dos lados de sua cama. – E peça para Marie vir pegá-la e colocá-la na cama.

– Como quiser, senhor. Com licença. – ele fez uma breve reverência e seguiu para fora do quarto, fechando a porta ao passar.

Christopher permaneceu sentado na beira da cama, começando a sentir o corpo dormente e cansado. Além de ter trabalhado o dia todo, tinha coroado o dia com um mergulho na água quase congelante do lago da propriedade. Respirou fundo, lançando outro olhar lateral para a menina ao seu lado. Tinha que esperar que Marie chegasse lá para levar a menina até o quarto antes de se deitar para descansar. Não soube quanto tempo se passou desde que saíra do banho e que estava sentado na beira da cama, mas a cabeça começava a pesar cada vez mais principalmente por estar sentado.

“Espero que não tenha convenientemente esquecido de avisar Marie, William”, pensou consigo mesmo, deixando um suspiro escapar dos lábios enquanto finalmente se rendia a deitar no canto da cama, mais distante possível da jovem. “Que inapropriado… posso ao menos esperar deitado…”

Pousou a cabeça num dos travesseiros de pena e ficou olhando para o teto alto do quarto. A noite já estava começando a tomar conta da propriedade e não havia nada iluminando o quarto no momento além da luz do luar entrando por uma das portas de vidro fechadas. Conseguiu esperar mais alguns minutos para ver se alguém batia na porta, fosse Marie, fosse o seu jantar. Não adiantou muito, o cansaço logo falou mais alto e ao fechar os olhos brevemente, foi tomado logo pelo sono pesado.

A noite foi de longe a mais perturbada que tivera. Mal conseguia lembrar do dia em que se sentira tão indisposto como daquela vez. O corpo estava pesado e até mesmo a luz forte sobre seus olhos fechados estava incomodando. Pensando bem… tinha fechado os olhos apenas para descansar por uns minutos… por que havia uma luz tão forte lhe atrapalhando e por que sentia o corpo inteiro dolorido? Não bastasse a dor no corpo, sentiu um peso diferente sobre seu peito, fazendo os músculos ficarem ainda mais doloridos. Levou um braço até o rosto, cobrindo os olhos da luz forte e finalmente abrindo-os para descobrir o que estava acontecendo. Desceu a mão até a boca ao sentir a garganta seca, tossindo algumas vezes e ficando ainda mais dolorido. Ao levantar o rosto, finalmente se deparou com um rosto infantil levemente familiar.

Piscou os olhos duas vezes e ainda sentiu a luz lhe afetar ainda mais. O olhar estava levemente embaçado e fixo no rosto da menina que o encarava de cima, a expressão aparentemente confusa, as mãos pequenas apoiadas em seu corpo e os braços esticados. Ela devolveu seu olhar e piscou algumas vezes, sorrindo em seguida ao vê-lo finalmente acordar.

– Tony…! – a voz dela soou estranhamente alta naquela manhã e ecoou em seus ouvidos num tom levemente agudo. Fechou os olhos de novo, tentando respirar fundo e tossindo de novo, escondendo a boca mais uma vez. Logo percebeu que a luz que lhe incomodava era na verdade a luz do sol matinal entrando pela janela. Voltou a encarar a menina cujo sorriso tinha desaparecido, dando lugar à expressão curiosa de novo.

– Você chegou aqui sozinha de novo… ou Marie sequer a levou para o quarto? – a voz dele saiu baixa, sem vontade realmente de se mover para tirá-la dali ou se sentar. – Bom… não importa mesmo.

– Tony?

O tom dela foi mais baixo e Christopher olhou-a de novo para ver que o rosto infantil se tornava num preocupado, um pouco amedrontado, talvez. Levantou o braço até a mão pousar na cabeça dela, afagando-lhe os cabelos lentamente. Apenas o gesto simples foi suficiente para que ela sorrisse largamente de novo, baixando o rosto até cruzar os braços em cima do peito dele e apoiar o queixo nos mesmos, ficando bastante satisfeita com a atitude dele.

Um suspiro pesado escapou dos lábios do conde, sentindo a garganta ainda mais irritada, quando ouviu então algumas batidas na porta e autorizou a entrada do visitante, uma mão sobre a boca para conter mais algumas tosses e a outra ainda nos cabelos da garota.

– Bom dia, senh–

William parou de falar de novo ao ver a menina deitada sobre o peito de Christopher. Ela virou o rosto para observá-lo entrar no quarto e lhe lançou um sorriso animado, sentando-se na cama de costas para Christopher para olhar o mordomo.

– Vejo que está se acostumando com o método diferente de acordar, senhor. – disse William, deixando a porta aberta e dando espaço para que uma das criadas entrasse com uma bandeja de café da manhã. Ela deixou a bandeja dentro do quarto, próxima à cama e se retirou com uma breve reverência, dando espaço para que o mordomo fechasse a porta e andasse até Christopher ainda deitado. – O senhor está bem?

– Estou. – respondeu, sentando-se finalmente e sentindo a cabeça pesar ainda mais. Levou a mão até os olhos, massageando as têmporas, tossindo mais algumas vezes por conta da garganta seca. – Água…

Estendeu a mão na direção de William, e ele prontamente lhe serviu um copo com água.

– Não me parece no melhor estado, senhor. – respondeu o mordomo, pegando o copo de volta quando toda a água tinha sido tomada. – Acho melhor adiar os seus compromissos hoje, a aventura de ontem deve ter lhe causado uma bela gripe, temo.

– Não há necessidade. – disse ele, escondendo os olhos de novo, respirando fundo e tossindo novamente.

– Eu realmente acho que há, senhor. – disse William, servindo uma xícara de chá. – Vou mandar mensageiros para cancelar os compromissos, repouse enquanto isso. Vou mandar prepararem uma sopa. Tome o chá para voltar a descansar, sim? Pedirei a Marie para vir buscar a jovenzinha e deixá-lo dormir.

– Já disse que estou bem, William. – pensou em se virar para colocar as pernas para fora da cama, mas desistiu só de pensar em sentir o corpo dolorido com o movimento. No mesmo instante, sentiu um movimento no colchão e desviou o olhar a tempo de ver a garota engatinhando no mesmo até passar por cima de suas pernas e se sentar ali, em seu colo, confortavelmente, olhando dele para William e depois para a bandeja do café da manhã.

– Percebi que ao menos sua teimosia está inteira, senhor. – devolveu o mais velho, pegando o prato com alguns biscoitos e estendendo para a jovem, que logo estendeu as pequenas mãos para pegar ao menos três biscoitos em cada mão e levar um deles para a boca, comendo com uma expressão bem satisfeita. – Por favor, senhor, faça o que disse. Assim se recuperará mais rápido e pode voltar ao trabalho. Além do mais, acho que a pequena Aleera vai gostar de sua companhia hoje.

Foi quase automático um sorriso que ela lançou ao mais velho ao ouvir o nome sendo pronunciado. A boca ainda cheia com um dos biscoitos, voltou os olhos grandes e infantis até Christopher, encarando-o intensamente. Ele olhou de volta para a menina, suspirando conformado e fazendo um aceno positivo com a cabeça diante da proposta de William.

– Que bom que chegamos a um entendimento, senhor. – serviu um copo de suco e deixou sobre a bandeja ao alcance de Aleera. – Vou chamar Marie agora, com sua licença.

O conde concordou novamente apenas com um breve aceno e William saiu do quarto. Levou a mão ao rosto outra vez, virando-o para o lado quando começou a tossir, talvez não fosse uma boa ideia que ela ficasse tão perto dele ou poderia ficar doente… mas então, não fazia ideia de como aquilo podia acontecer à sereia, se ela ficava doente como qualquer outra pessoa.

– Aleera… – o nome escapou aos seus lábios depois de encará-la de volta por tanto tempo e mais uma vez a resposta imediata dela foi um grande sorriso, quase pulando na cama nas pernas dele, os olhos brilhando. – Acho que água gelada não a afeta tanto quanto a nós, hm?

Ela continuou sorrindo e se servindo dos biscoitos, estendendo os dois braços depois de comer os biscoitos para pegar o copo de suco com ambas. Começou a balançar as pernas sobre a cama, enquanto bebia praticamente metade do suco.

– Ainda acho que tudo ontem foi um sonho muito estranho… – suspirou de novo, passando a mão pelos cabelos. Pegou a xícara de chá de novo para beber mais um pouco, sem se importar com a garota ainda sentada em suas pernas. – Agora… temos que ensiná-la a falar propriamente.

A menina levantou o olhar para encará-lo, sorrindo de novo depois de tomar o suco. Definitivamente ela não entendia nada do que ele dizia – ou ao menos boa parte de suas palavras. Quase automaticamente, devolveu o sorriso dela, passando a mão no topo de sua cabeça. Os olhos dela praticamente brilharam com o ato, e apoiou as mãos nas próprias pernas, aceitando o afago. Naquele instante, ouviu o som de batidas na porta e deixou a xícara de lado, baixando a mão da cabeça dela para levantar o rosto na direção da porta, autorizando a entrada da pessoa. Logo Marie passou pelo portal, trazia um prato fundo nas mãos com um talher de prata. Aproximou-se da cama com um sorriso satisfeito no rosto.

– Então a senhorita está bem, não é? Parece que o passeio no lago ontem foi cansativo. – ela disse, lançando um olhar rápido para a jovem e depois voltando-se para Christopher, aproximando-se da bandeja para arrumar um espaço e deixar a sopa. – Meu senhor, por outro lado… não tem mais a mesma resistência.

Ela então estendeu os braços na direção de Aleera, e a menina piscou algumas vezes para ela, depois para Christopher, que precisou apenas fazer um aceno positivo com a cabeça para que ela decidisse seguir com Marie. Logo estava nos braços da governanta, envolvendo o pescoço dela com as mãos pequenas, olhando da bandeja de comida para Christopher que tinha deitado novamente.

– William está tomando conta dos seus compromissos de hoje, senhor. – Marie avisou, empurrando a bandeja um pouco mais para perto do conde. – Por favor, tome a sopa enquanto ainda está morna. Vou lhe trazer algumas ervas medicinais para se recuperar mais rápido, sim? Enquanto isso, descanse, meu senhor. Vou levar essa mocinha para tomar um banho… e espero que dessa vez ela resolva colaborar, e depois procurar alguma atividade para distraí-la para que possa dormir tranquilo.

Christopher quase se levantou quando ouviu o comentário sobre dar banho em Aleera. Aquilo talvez fosse um grande problema. Mal precisou abrir a boca para perguntar como Marie pretendia fazer aquilo, a mais velha pareceu perceber logo sua preocupação.

– Não se preocupe, senhor, tenho certeza que podemos dar um jeito nisso. – disse, um sorriso largo e voltando a atenção para Aleera. – Não é mesmo, criança?

Fez um aceno com a cabeça e a menina apenas repetiu, parecendo bem curiosa.

– Ótimo. – a governanta sorriu de novo e voltou-se para o conde, apoiando a menina melhor nos braços. – Agora seja um bom mestre e tome a sopa, ou amanhã não vai poder dar prosseguimento ao trabalho. Com sua licença, senhor.

Ela fez uma breve reverência com a cabeça na direção de Christopher, e depois de olhar os dois, Aleera fez o mesmo, rindo em seguida da atitude. Em alguns passos, as duas já tinham saído do quarto e fechado a porta, o silêncio e a calmaria se instalando estranhamente no lugar. Christopher olhou ao redor e subitamente o quarto pareceu grande, a cama pareceu grande e todos com uma sensação de vazio. Virou-se para pegar o prato de sopa de onde ainda saía fumaça e começou a tomar o líquido, a temperatura morna deste aliviando um pouco a sensação incômoda em sua garganta.

Antes mesmo de terminar a refeição, William tinha voltado ao quarto para avisar dos compromissos remarcados e lhe levar algumas ervas medicinais, informando que caso não melhorasse, teria que chamar o médico – o que o desagradou profundamente e foi motivo para ficar recluso ao quarto pelo resto da manhã, ter o almoço servido na cama, e ainda dormir no começo da tarde.

Quase não levantou da cama, ainda indisposto, os músculos doendo e a cabeça pesada. Mas cinco vezes ainda naquela manhã, Aleera tinha voltado ao quarto na companhia de Marie, segurando-lhe a mão e entrando no cômodo com o olhar voltado diretamente em sua direção. Ela andava até a cama, apoiava as pequenas mãos no colchão, olhava para Christopher de cima e sorria, afastando-se quase correndo logo em seguida. Ele estranhou das primeiras vezes que ela fez aquilo, e Marie apenas deu de ombros, sem saber explicar a atitude da menina. Talvez quisesse apenas confirmar que ele estava bem e acordado, ou que não tinha sumido o dia inteiro como fizera para trabalhar. Com o comportamento diferente e cuidadoso dela, mal lembrou de questionar Marie sobre como conseguira dar banho nela, já que estava vestida numa das roupas trazidas pelo alfaiate.

Na quinta vez que ela entrou no quarto, ele estava quase dormindo e não percebeu quando a porta foi aberta. Também não percebeu quando Marie abaixou-se ao lado da menina, lhe confidenciando algo – que ela dificilmente entenderia – e fazendo um gesto para levar a mão à testa dela, indicando Christopher na cama logo em seguida. Como das outras vezes, ela praticamente saltitou o caminho até a cama e quando chegou perto o suficiente do colchão, estendeu a mão pequena e um pouco fria para tocar na testa do conde por cima dos fios de cabelo desalinhados. Ele abriu os olhos rapidamente com o movimento estranho e encontrou os olhos grandes e claros dela, acompanhados de um sorriso ainda mais largo. Sorriu de volta mesmo que rapidamente, e logo ela tinha afastado a mão e corrido de volta para a porta, parecendo ainda mais satisfeita com o novo ato.

Ele adormeceu por fim logo depois que ela deixou o quarto, e não acordou por boa parte do fim da manhã e do início da tarde, perdendo até mesmo o horário do almoço e não sendo perturbado de seu sono por William ou qualquer outro empregado. Aleera voltou ao quarto com a mesma frequência e pousou a mão sobre sua testa três vezes enquanto ele ainda dormia. Quando acordou, o relógio de parede já marcava quase três da tarde, e embora se sentisse descansado, a cabeça ainda doía e a garganta continuava levemente irritada. Olhou ao redor, o quarto continuava silencioso e vazio.

Colocou as pernas para o lado, sentando-se para finalmente se levantar, as dores nos músculos tinham diminuído consideravelmente e conseguiu andar tranquilamente até as janelas fechadas. Sentia o suor escorrendo pelo corpo, abriu as janelas e deixou o vento frio do inverno invadir o cômodo. Mal ficou três minutos parado ali, a porta do quarto se abriu e precisou se virar para conferir a presença de William.

– O que está fazendo, senhor? – o mordomo caminhou a passos largos na direção das portas, fechando-as imediatamente. – Vai piorar se ficar recebendo esse vento frio. Por favor, volte para a cama, sim?

– Eu já me sinto melhor. – respondeu o conde, sincero. – Estou suando, peça alguém para vir preparar meu banho.

– Isso é um bom sinal, significa que a febre já está passando. Mas não exagere, senhor. Vou chamar uma das criadas para preparar um banho quente. – ele disse, finalmente acompanhando Christopher na direção da cama novamente. Ele apenas se sentou no canto dela, tossindo algumas vezes. – Enquanto isso, pedirei para servirem o seu almoço, precisa se alimentar bem.

– Eu almoço depois do banho. – respondeu. – E Aleera?

– Ela está muito bem. – um sorriso surgiu diante da pergunta do conde. – Ela esteve aqui apenas alguns minutos antes do senhor acordar. Tem uma ótima enfermeira, meu senhor. Marie conseguiu distraí-la com sucesso com um livro essa tarde. Talvez a criança aprenda rapidamente a nossa língua.

– Isso é um bom sinal. – Christopher fez um sinal de concordância com a cabeça. – Traga-me um chá, William… minha cabeça ainda dói.

– Imediatamente, meu senhor.

O mordomo mais uma vez se curvou e se retirou do quarto, no que Christopher aproveitou para se deitar. Parecia que a dor de cabeça diminuía quando estava deitado, embora estivesse cansado da posição, por mais que a cama fosse confortável.

Em poucos minutos William estava de volta com o chá e acompanhado de duas criadas que levaram água quente para o banheiro do quarto, preparando um banho morno para ele. Se retiraram e ele pode se demorar alguns minutos na banheira, a disposição voltando ao seu corpo e começando a ser tomado pela fome. Não passou mais de quinze minutos na água, saindo logo do banho para colocar roupas confortáveis: uma calça simples, camisa de algodão, roupão de seda por cima e um par de sandálias abertas nos pés apenas para caminhar pela casa. Penteou os cabelos para trás rapidamente e saiu do quarto para ir até a sala de jantar, onde o seu almoço seria servido.

Ao descer o longo lance de escadas, entretanto, a primeira opção de seguir na direção da sala de jantar foi totalmente ignorada quando um som peculiar invadiu seus ouvidos. Os tons aleatórios das teclas de piano ecoavam pela casa sem formar uma melodia exata. Seguiu pelo corredor a passos calmos até passar pelo hall de entrada, a sala de espera, uma sala de visita e finalmente alcançar o salão de música ao fim do corredor. O local era tão espaçoso quanto os demais cômodos da mansão. Era bem adornado com pinturas enormes nas paredes, retratando alguns antepassados da família, além de estatuetas e um trio de sofás de assentos aveludados; mas o que mais chamava atenção eram os instrumentos ao redor do local: uma harpa grande e dourada ao lado de um dos sofás, três violinos dispostos em suportes na parede, duas flautas lado a lado numa prateleira ao lado dos violinos e, por fim, o piano de cauda branco no canto da sala, iluminado pela luz do sol de uma janela exatamente ao lado deste. Marie estava sentada no pequeno banco, com Aleera ao seu lado, a jovem bastante interessada em tocar todas as teclas que conseguia alcançar ao mesmo tempo, enquanto Marie ria e tentava lhe dar algumas breves instruções ou comentar alguma coisa sobre o piano em si.

Ficou parado no portal da sala, observando a cena e cruzando os braços diante do corpo, deixando um sorriso surgir automaticamente nos lábios ao ouvir as notas destoadas que eram produzidas pelas mãos infantis. Levou a mão até a boca, sentindo a garganta seca e tossindo algumas vezes. A tosse foi o suficiente para denunciar sua presença e a primeira a se virar para se dar conta daquilo foi Aleera, sorrindo abertamente ao pousar os olhos sobre ele.

– Meu senhor, já está se sentindo melhor? – Marie perguntou, levantando-se do banco e arrumando a saia do vestido, parada ao lado do piano. – A pequena Aleera estava bem preocupada. Foi vê-lo várias vezes até quando estava dormindo.

– Estou melhor, Marie, obrigado. – ele respondeu, andando até as duas e parando ao alcance da jovem. Ela logo estendeu a mão para lhe segurar o tecido do roupão, e num movimento quase instintivo, estendeu a própria mão para colocar sobre a cabeça dela. – Vejo que estava aprendendo a tocar piano.

– Agora que o senhor está aqui, acho que seria muito mais eficaz ao ensiná-la algumas melodias, o que acha, meu senhor? – disse Marie, fazendo um sinal na direção do banco para que ele o compartilhasse com Aleera. – O senhor já comeu algo? Vou mandar prepararem o almoço.

– Sim. William mandou servirem na sala de jantar. Eu já irei. – ele acenou com a cabeça, dando alguns passos para se sentar ao lado de Aleera.

– Vou conferir os preparos, meu senhor. – Marie sorriu satisfeita e fez uma breve reverência, seguindo para a saída da sala e parando no portal para observá-los por um instante.

Fazia mais de dois anos que aquela sala estava vazia. E mais de dois anos que nenhuma melodia ecoava por aquelas paredes. Era um silêncio realmente incômodo e doloroso. Seguiu pelo corredor com a esperança de que aquele silêncio seria logo quebrado.

Christopher olhou para a menina ao seu lado, que então não tinha mais mostrado qualquer interesse pelo instrumento, senão por ele mesmo. Ainda segurada com o tecido de seu roupão, o rosto estava virado para cima, encarando-o diretamente.

– Não quer aprender a tocar? Eu vou mostrar como… – ele estendeu as duas mãos até as teclas, posicionando os dedos em cada lugar devido, e até que a primeira nota fosse produzida, ela manteve o olhar nele. – Espero que goste de música…

Ele desviou o olhar dela para começar a dedilhar as teclas brancas e pretas. A melodia ecoou na sala e reverberou pelo corredor da casa, num ritmo lento e suave, como se fosse aquele mesmo som que ele ouvira embaixo da água, tão distante e tão próximo ao mesmo tempo. Mal percebeu um sorriso se formar no próprio rosto, e desviou o olhar para o lado apenas para perceber que Aleera tinha os olhos fixos nas teclas, quase arregalados, surpresa com o som que eles produziam e com a velocidade com que seus dedos se moviam. Ela levantou as pequenas mãos para segurar o braço dele, mas não desviou o olhar do piano, e ele prosseguiu com a melodia, notando a surpresa dela cada vez maior.

Olhou para as teclas de novo e depois para Aleera, prestes a falar algo sobre a música, mas parou antes que qualquer palavra pudesse se formar em sua mente ou em sua garganta ao ver que ela tinha fechado os olhos e a boca estava levemente entreaberta. Fechou os lábios rosados e então um som foi produzido no topo da garganta dela, num murmúrio, acompanhando as notas produzidas pelo piano com absoluta perfeição.

Ele quase deixou os dedos escorregarem e errou uma das notas com a surpresa diante do que ela tinha feito. Aquele deslize na nota não passou despercebido e a menina levantou o olhar para ele, curiosa de novo. Ele parou de tocar, ainda sem entender o que tinha acontecido. Manteve o olhar no rosto infantil dela e então deu seguimento à música no piano. Continuou de onde tinha parado, a melodia se repetindo num certo ponto, e exatamente quando a repetição começou, ela encarou o piano e fechou os olhos, os lábios fechados e o som sendo produzido no topo de sua garganta. Ele não vacilou daquela vez, deu prosseguimento à melodia simples e com mais algumas notas, ela abriu os lábios, o som de sua voz se tornando mais alto, acompanhando as notas em perfeita sincronia, sem pronunciar qualquer palavra sequer. Ela ainda segurava seu braço, e a expressão infantil era estranhamente compenetrada enquanto seguia a melodia com a própria voz, sem qualquer letra. Apenas quando a melodia estava prestes a se repetir, ele diminuiu o ritmo e foi aumentando os espaços entre as notas, a atenção na garota enquanto ela também encerrava sua canção. Antes dele tocar na última tecla, ela fechou os lábios, abriu os olhos e se virou para ele, o sorriso ainda mais largo tomando conta de sua expressão inocente.

Simplesmente não conseguia imaginar outro modo de definir aquela jovem: se ela não era um ser mágico, devia ser no mínimo um milagre. E aquele sorriso ingênuo apenas adicionava à sua imagem excepcional. Estendeu o braço novamente para colocar sobre a cabeça dela.

– Você é realmente incrível. – disse, um sorriso breve tomando conta de seus lábios. – Estou feliz que tenha me encontrado.

3. O Resfriado e a Melodia

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Local: home
Modo: sleepy sleepy
Música: none

2 comentários / Deixe um comentário
Comments
themfernandes From: themfernandes Date: November 5th, 2013 11:46 am (UTC) (Link)

*-*

Eu esperei tanto tempo pra isso *----*
Amei esse capítulo, omg!

A primeira parte, quando o Tony diz que o nome da sereiazinha é Aleera, eu tive um ataque triplo de fofura :33

E depois ele fica doente e ela indo na cama dele toda hora pra ver se ele está bem, omg! E colocando aquelas mãozinhas pálidas na testa dele conferindo se ele está febril (mesmo ela nem tendo noção do que seja isso, só mesmo repetindo ainda as ações das outras pessoas, como essa indicação da Marie), foi bonitinho demais :333

E ela tomando café no colo dele, tipo, oi? hahahah <3

Adoro o clima de ingenuidade que essa história passa, esse ar pueril da Aleera permeou todo o capítulo, eu terminei de ler com uma sensação tão leve sabe? Essa relação dela e do Conde é meiga demais, ai meu deus do céu hahah <3

Na moral, não tem como não ser minha história favorita
Confesso, eu amo essas histórias água com açúcar e a sua tem o bônus importante de ter sereias, SE-REI-AS! hahah Super criativo e diferente do que a gente tá acostumado a ler por ai de romances e seres sobrenaturais

E uau, eu fiquei imaginando como seria a voz dela seguindo exatamente a melodia do piano, que incrível! Tony deve ter ficado ainda mais abobalhado por ela

Espero que ela aprenda a falar logo! E que comece aos poucos a interagir com a sociedade, afinal de contas, ela é a protegida do Conde de Devonshire né? hahah

E sério, quero muito uma cena dos dois dançando valsa, ele tendo que ensinar ela hahah <3 Vou surtar de fofura se você escrever *-*

Como sempre, menine, você tá de parabéns!
E eu estou feliz demais da conta por te ver voltar à ativa! :DD EU ODEIO MUITO O SEU TCC hahahah :P

Ansiosa pra COD e pro próximo capítulo desta história aqui também <3
Um beijo! (e mals a demora em comentar, mas finalmente saiu hahah ^^)
history_teller From: history_teller Date: November 8th, 2013 03:27 am (UTC) (Link)

Re: *-*

Demorei, mas finalmente postei a continuação, né!!! DHUSAIDHIS Que bom que gostou do capítulo!! Eu adorei escrever a parte que ele a apresenta pra os outros, tipo "parem de chamá-la de garota, ela tem nome!" >D Muito divertido 8D E ela indo cuidar dele foi uma coisa muito aleatória que surgiu do além dahsudiahduaisdhuidsa mas eu achei que ficou muito meigo.

Mas né... gente, o colo dele já pertence à ela, não tem pra onde correr u_u ainda bem que continua essa sensação de ingenuidade, porque é o que pretendo passar com a história... até então, né, já que em breve alguns anos se passarão e bom... lá vem os romances, ingênuos também e as complicações sobre o futuro dela, entre outros! Acho que ainda vou fazer alguns capítulos com ela criança, pra fazer alguns problemas, e então avançar pra uma idade mais adulta :3 Vai ser legal.

Bom, eu tive que deixar a parte dela saber cantar, né, resgatar um pouco da lenda das sirens, hahahaha, então ela sabe cantar muito bem, embora não abra a boca pra cantar na voz alta senão seria o tipo de som alto que quebraria vidros dhasuidahdius mas foi meigo, e ela conhece notas musicais muito bem, tem ouvidos bastante sensíveis, vai ser bom trabalhar nisso :3

Aprender a falar, interagir com a sociedade = dançar valsa num baile social para ser apresentada. COM CERTEZA vai ter essa cena dashduiashdiduash JÁ SEI COMO VOU FAZER ELE ENSINANDO A ELA E VAI SER A COISA MAIS MEIGA DO MUNDO, MORRENDO, BEIJOS DASUIDAHDIUSAHUI

Bom, vamos deixar para quando eu postar os próximos, não é? CoD era pra ter saído essa semana, mas com a correria do casamento da minha irmmã e uns probleminhas pessoais, acabou atrasando. Em duas semanas eu devo estar postando.

Beijos, obrigada pelo comentário! Até a próximaaa *-*
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