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First Love Game: Cap. 2 [+13] - Contos Perdidos
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First Love Game: Cap. 2 [+13]
Então!!! Né! Eu FINALMENTE voltei! Hahahahaha~

Sei que demorei bastante, to na reta final do TCC, falta apenas aplicar as correções e receber o último capítulo de volta da minha professora. Mas isso não me impede de continuar as historinhas, não é?! Como eu voltei a escrever semana passada, estou atualizando as historinhas mais leves, então ainda pretendo atualizar O Conde a a Sereia na quinta-feira (pra felicidade da Maíra, né >3). Children of Death e Elo de Sangue terão suas atualizações MUITO PROVAVELMENTE na semana que vem. Então espero segunda estar colocando o capítulo 3 aqui! Vamos ver como as coisas vão sair, não é? :)

Então, divirtam-se com o capítulo novo e até as próximas atualizações que espero que voltem a ser frequentes! Boa leitura, pessoas!

Disclaimer: É minha. Cópias não-autorizadas estão sujeitas a processo judicial.

First Love Game

First Love: Lunch

O silêncio pairou entre os dois e o contato visual não foi quebrado. O olhar convencido dele revelava bastante da expressão surpresa da mulher, as maçãs do rosto começando a corar ao reencontrá-lo. Não apenas pela situação inesperada, mas por perceber como ele ainda estava mais atraente do que na noite de sábado com aquela roupa normal. O momento de tensão foi quebrado apenas quando a voz de Aoki chamou a atenção de ambos.

– Er… senhorita Yamamoto. Acho melhor eu ir embora agora, se me dá licença. – ele fez uma reverência breve com a cabeça na direção de Kazuki e de Amane, e no instante seguinte se virou numa velocidade incrível preparando-se para correr.

Não teve tempo de dar um passo sequer. No mesmo momento a mulher estendeu a mão na direção de sua roupa, segurando-o pela gola da camisa de um modo brusco, puxando-o para perto dela de novo e dando um passo para trás para se afastar de Kazuki.

– Eu não lembro de ter combinado nada com você, senhor. – ela respondeu, o rosto ainda corado e o tom irritado. – Estou ocupada agora, não posso perder tempo com essas brincadeiras. Vamos, Shiroi, temos muito que conversar.

Ela se virou, dando um passo largo para a direita, puxando o escritor consigo, totalmente confuso. Mesmo com a pressa e os passos largos, ele facilmente conseguiu se colocar diante dos dois, interrompendo seu caminho, uma mão no bolso e a expressão um pouco irritada.

– Não seja tão implicante, Amane. – ele insistiu. – É só um almoço. Não vai fazer mal… tenho certeza que o senhor Shiroi não vai se importar de me emprestar você por meia-hora, não é, Shiroi? – voltou-se para o escritor, estreitando os olhos num tom obviamente ameaçador.

O rapaz simplesmente congelou onde estava, arregalando levemente os olhos e dando um passo automático para trás, embora Amane ainda segurasse sua camisa com bastante força.

– N-n-não, n-n-não me importo…

– Mas eu me importo. Saia do meu caminho. – ela estendeu a mão para empurrá-lo do caminho e voltou a caminhar praticamente arrastando Aoki consigo.

– Senhorita Yamamoto, por favor, eu acho que podemos continuar isso outro dia e–

– Vamos fazer agora. – o tom dela foi categórico, e naquele momento o escritor encolheu os ombros, duvidoso de qual dos dois teria que obedecer. Ela desviou o olhar para Kazuki, praticamente rangendo os dentes. – Se você não tem mais o que fazer, não é problema meu. Estou trabalhando, vá procurar outra pessoa pra irritar, ou vou chamar a polícia.

Ela tirou imediatamente o celular da bolsa, o olhar bastante desafiador dirigido ao homem mais alto.

– Você ficou muito mais arisca do que no colegial, hein. Acho que nosso namoro lhe fez bem. – um sorriso convencido surgiu no rosto dele, mas no mesmo instante o som do aparelho celular dele tocando foi que os interrompeu. Fez um sinal com a mão na direção dela para indicar que precisava atender e levou o celular ao ouvido.

A mulher não perdeu a chance preciosa e desviou-se dele em seu caminho, mais uma vez arrastando o escritor que já tinha passado do nível do desespero. Daquela vez entretanto o outro não surgiu em sua frente ou tentou impedi-la. Conseguiu dar dez passos rápidos na direção da esquina com Aoki praticamente caindo no processo, e apenas quando estava longe o suficiente, arriscou olhar para trás. Kazuki tinha um semblante sério e estava bastante compenetrado na ligação no celular. Na verdade, parecia mais que estava irritado… uma expressão que ela praticamente não lembrava. Ele não olhou para ela de novo, entrou no carro apressado, ainda falando no telefone e em poucos minutos tinha acelerado o veículo e sumido na rua. Mal percebeu quando ficou observando-o até que ele desaparecesse, sem ao menos lhe lançar um último olhar. Só foi tirada de seus pensamentos quando ouviu a voz de Aoki.

– Er… senhorita Yamamoto… – a voz dele parecia levemente fraca, e quando Amane se virou para o rapaz, notou como ainda estava puxando a camisa dele, chamando atenção das pessoas que passavam ao redor e forçando-o a se curvar em sua direção desconfortavelmente. – Se a senhorita… não se importar… hm…

– Ai meu Deus! Desculpe, senhor Shiroi!!! – ela soltou-o imediatamente, levando as mãos até a camisa amarrotada dele para tentar ajustá-la e deixá-la mais apresentável. – Eu sinto muito, muito mesmo!!! O senhor está bem?!

– Estou, não se preocupe. – o rapaz levou uma mão à nuca, coçando os cabelos um pouco sem graça. – Mas a senhorita tem certeza que está tudo bem com aquele homem? Ele parecia realmente interessado em ter o encontro… desculpe por atrapalhá-los.

– Não! – a voz de Amane subiu dois tons na pressa de responder o comentário dele. – Não, mesmo, está tudo ótimo. Eu nem sei do que aquele homem está falando, está me perseguindo, isso sim.

– Perseguindo?! – Aoki arqueou as sobrancelhas numa expressão de surpresa. – A senhorita devia ir à polícia! Ele parece uma pessoa perigosa… bastante.

– Perigoso?! Hahahaha! – a risada saiu espontaneamente, e ela precisou levar uma das mãos aos lábios para se recompor. – Kazuki não bate numa mosca.

– Então a senhorita o conhece.

– Isso não vem ao caso. – ela suspirou, levando uma mão até o cabelo e colocando uns fios atrás da orelha. – Vamos ao nosso almoço antes que meu horário acabe, daí podemos falar do seu romance.

– Certo. – Aoki concordou com um aceno de cabeça e começou a acompanhá-la novamente na direção do restaurante que ela já tinha indicado.

Logo a conversa tinha voltado ao assunto do romance e da nova carreira do escritor, e quando alcançaram o restaurante, Amane já estava dando algumas dicas de correção do enredo para Shiroi, que prontamente as anotava num pequeno caderno que tinha tirado do bolso. Ainda havia alguns traços notáveis de um roteiro quadrinizado no manuscrito, além de uma descrição menos detalhada provavelmente pela tendência do rapaz em transmitir aquilo por imagens, mas ela ainda se impressionou com a dedicação dele em ouvir suas sugestões e propor correções bem eficientes. Durante uma hora, a conversa seguiu tranquila e ela ainda conseguiu passar muitas informações sobre o departamento editorial em que trabalhava. Shiroi era o terceiro autor que iria tomar conta dali em diante, e embora ele demonstrasse muito interesse, sabia que perto dos prazos ele poderia se tornar tão problemático quanto aqueles com quem já trabalhava.

Quando o horário do almoço se encerrou, eles seguiram para fora do restaurante e de volta à editora. Naquele momento, entretanto, Amane não pode deixar de olhar ao redor como se esperasse encontrar alguém em particular. Balançou a cabeça para os lados, tentando tirar os pensamentos da cabeça, afinal, era uma coisa boa que ele não a tinha perseguido no fim das contas. Perder tempo pensando nele não era a coisa mais inteligente a se fazer, além de ter no que trabalhar e ocupar a mente. Deixou um suspiro pesado escapar aos lábios, chamando a atenção de Aoki involuntariamente.

– A senhorita está bem?

– Ah… sim, estou sim. – imediatamente ela sorriu em resposta, ainda caminhando lado a lado com o rapaz, quando finalmente alcançaram a entrada do prédio da editora. – Bom, é aqui que nos separamos, senhor Shiroi. Espero encontrá-lo de novo em breve, certo? Qualquer dúvida que tiver sobre o manuscrito ou o processo editorial, os prazos, enfim, não hesite em me ligar.

Ela estendeu finalmente um cartão na direção dele, com o seu nome, o nome da editora e o telefone para contato, além do e-mail.

– Muito obrigado, senhorita Amane. – ele fez uma breve reverência com a cabeça ao pegar o cartão. – Até mais, então.

– Se cuide. – acenou na direção dele e pegou o elevador, para voltar ao departamento editorial de romances e voltar a trabalhar na produção dos livros já finalizados.

O resto da semana não poderia ter sido mais tranquilo. Na verdade, era uma das semanas mais tranquilas para ela em meio à correria dos meses para que os autores cumprissem os prazos com a produção dos capítulos de seus novos títulos. Precisava apenas lidar com o departamento de vendas, de marketing e com as gráficas para que os livros fossem produzidos sem qualquer erro e que cada um tivesse a triagem devida. Era sempre um problema quando os livros se esgotavam por conta da falta de títulos na primeira triagem. Daquela vez, dois dos autores pelos quais estava responsável terminaram os livros ao mesmo tempo, com o prazo extremamente apertado e depois de muita supervisão dela dia e noite, podendo publicá-los para lançamento ainda no começo do mês. Aquilo definitivamente era uma grande vitória.

Ficou tão ocupada o resto da semana apenas cuidando das duas publicações, sempre mandando instruções novas para a gráfica, que não teve sequer tempo de pensar na volta de Kazuki. Quando se lembrou do homem, a sexta-feira já ia alta e estava saindo do trabalho para a estação de metrô, na companhia de Rika.

– Os livros estão em ordem? – a amiga perguntou, fechando o casaco por conta do frio noturno quando elas saíram do elevador para seguirem até o saguão de entrada do prédio.

– Sim, finalmente consegui que consertassem a capa. – respondeu Amane, soltando os cabelos e despedindo-se rapidamente dos conhecidos por quem passava no saguão. – Deve estar nas livrarias até segunda-feira, espero ansiosamente.

– Os romances de Ryo-sensei sempre são os melhores. – Rika comentou, num ar de sonhadora que apenas fez com que a amiga balançasse a cabeça de modo pesaroso. – Ele tem uma narração tão concisa e ao mesmo tempo envolvente. Gostaria que os outros escritores conseguissem fazer a mesma coisa.

– Eu queria que a personalidade dele fosse mais envolvente, isso sim. – Amane rodou os olhos. – Ele é extremamente sério, irritante, possessivo, autocentrado, e me dá mais trabalho do que os livros dele podem me pagar em lucro. Ao menos não tenho o mesmo problema com Sasaki-sensei. E pelo visto Shiroi-kun vai ser um escritor tranquilo. Se tivesse que aguentar outra personalidade forte como a de Ryo-sensei eu já teria desenvolvido uma úlcera.

– Mas Ryo-sensei tem um ar tão sedutor. – o comentário dela foi em tom de segredo, seguido de um sorriso indiscreto. – Não deve ser tão ruim trabalhar perto dele.

– Eu queria poder concordar com você.

Elas finalmente saíram do prédio, as portas automáticas de vidro se abrindo para que ambas alcançassem a rua com a iluminação artificial noturna vinda de todos os lugares na avenida. A primeira coisa que chamou a atenção de Amane, entretanto, foi um carro caro que estava parado alguns passos adiante na rua, ao lado da calçada. Parou imediatamente, olhando ao redor e esperando que ele aparecesse de novo com aquele terno caro, aquela expressão convencida e a insistência em levá-la para um jantar ou qualquer outro lugar estranho em que não poderia pedir ajuda de ninguém.

Em alguns minutos, entretanto, um rapaz apareceu para destravar o carro e entrar no lado do motorista. Não estava em um terno, embora a roupa fosse cara, equivalente ao tipo de carro que tinha. Os cabelos eram claros e ele não era tão alto quanto ela já sabia que Kazuki era. Inconscientemente, deixou um suspiro breve escapar aos lábios, começando a se praguejar mentalmente pela atitude. Afinal, por que esperava que fosse ele?! A semana tinha sido ótima sem lembrar dele um dia sequer e sem ser importunada também.

– Amane!

O chamado de Rika quase fez com que ela pulasse para trás, olhando para a expressão irritada da amiga.

– O que deu em você?! Presta atenção, mulher! – ela bateu de leve no ombro dela, recebendo um sorriso sem graça em resposta. – Anda logo, ou vamos chegar atrasadas pra o encontro com o pessoal do editorial e das vendas.

– Como vamos chegar atrasadas pra encontrar um grupo no bar? – Amane voltou a andar, rodando os olhos de modo pesaroso.

– Com você trabalhando depois do horário e ainda ficando parada voando aí no meio da rua. Vamos logo que precisamos beber pra comemorar o sucesso futuro das novas publicações. – ela passou o braço pelo da amiga, praticamente arrastando-a na direção da estação de metrô. – Dessa vez terei mais vendas que você, vai ver.

– É, vamos apostar enquanto estivermos bêbadas, assim não preciso lembrar de quanto dinheiro perdi pela manhã. – respondeu, apressando o passo para que praticamente começassem a correr até a estação.

Em menos de meia hora, estavam no bar onde o encontro dos colegas de trabalho tinha sido marcado. Novamente, tinha esquecido rapidamente do retorno de Kazuki e se divertiu o suficiente, a única época do mês em que podiam fazer uma comemoração sem se importar de ter que acordar cedo na manhã seguinte, revisar manuscritos e tabelas de vendas, ou coisas do gênero.

Quando ela chegou em casa naquela noite, o relógio já marcava mais de quatro da manhã, e quase não conseguiu encontrar a fenda da chave para abrir a porta do apartamento. Entrou e fechou a porta ao passar, passando a corrente e ignorando a trava com a chave depois de tentar reencontrar o buraco da fechadura durante dez minutos. Jogou a bolsa num canto, o casaco noutro, deixou os sapatos na entrada e cruzou o pequeno corredor até o próprio quarto. Se jogou na cama sem nem pensar duas vezes e adormeceu em menos tempo ainda. Ao menos poderia dormir a manhã inteira no sábado para se recuperar da ressaca e acordar num horário agradável. Podia até colocar algumas novelas em dia, comer um enorme pote de sorvete para repor a glicose e descansar o fim de semana inteiro, sem ter que se preocupar com qualquer autor ou detalhes de publicação.

Ao menos aquela era a sua expectativa.

Acordou pela manhã procurando o despertador para jogá-lo contra a parede com aquele som estridente e irritante que estava apenas fazendo sua cabeça latejar ainda mais. Encontrou o relógio sobre a cabeceira da cama, mas ele não estava realmente despertando, e mesmo depois de bater nele, o som continuou repetidamente. Levantou o rosto do travesseiro, constatando que o relógio marcava 10h30 e que o som estava ecoando no apartamento inteiro.

Ah não… só pode estar de brincadeira comigo… – murmurou para o travesseiro, colocando-o sobre a cabeça para tentar impedir que o som alcançasse seus ouvidos.

O som não cessou, pelo contrário, se tornou ainda mais intenso e repetitivo. Foi obrigada a se levantar para atender o visitante antes que algum dos vizinhos fosse reclamar do barulho da campainha. Parou no fim do corredor, observando pelo olho mágico quem podia estar lhe incomodando tão cedo naquela manhã de sábado. Bateu com a mão automaticamente na testa, sem acreditar no que estava vendo. O homem alto, conhecido e de roupas casuais continuou apertando na campainha. A expressão dele era bastante irritada e parecia estar prestes a derrubar as paredes se não fosse atendido.

Suspirou profundamente, passando a mão nos cabelos desgrenhados para então tirar a corrente de proteção da porta e abri-la.

– O que está fazendo aqui, Ryo-sensei? – perguntou, começando a ver duas pessoas à sua frente.

O homem sequer pediu licença, passando direto para dentro do apartamento. Ele devia ser uns vinte centímetros mais alto que ela, cabelos castanhos curtos levemente bagunçados, olhos estreitos e escuros bastante incisivos, porte físico médio. As roupas eram básicas, uma camisa de mangas compridas, calça jeans surrada, sapatos marrons que quase foram esquecidos enquanto ele entrava no apartamento bastante alarmado.

– Eu não recebi as cópias do livro ontem, e não aprovei a capa, como mandaram a gráfica imprimir sem meu consentimento? – o tom irritado já denunciava que aquela conversa ia durar mais tempo do que Amane estava disposta a gastar. E justo no seu sábado de folga.

– Ryo-sensei, eu mandei as cópias para o senhor na quarta. Liguei para você várias vezes, mas não me atendeu, eu precisava enviar para a impressão. – ela respondeu, massageando as têmporas e fechando a porta para andar até a sala onde o homem já tinha confortavelmente se instalado, sentando no sofá de dois lugares. – Não se preocupe, a arte estava exatamente como o senhor especificou, eu me certifiquei disso.

– Eu não recebi cópia nenhuma. – devolveu o homem. – Sabe que odeio que meus livros sejam publicados sem que os veja antes.

– Ryo-sensei… não podíamos conversar sobre isso outro dia? A gráfica já está produzindo a primeira triagem, não tem como mudar nada agora, por favor. – colocou uma mão na cintura, massageando as têmporas de novo. A cabeça pesava ainda mais. Só faltava aquela para estragar o seu fim de semana tranquilo.

– Não precisaríamos ter essa conversa se eu tivesse visto as cópias antes de serem enviadas pra gráfica. – mais uma vez o tom foi mais irritado. – Além do mais, eu devia ter mudado o capítulo final, não estava como o esperado.

– O capítulo estava ótimo. Se não fosse enviado essa semana, sabe que só seria publicado em três meses. Repassamos o último capítulo mais de três vezes. – respondeu ela. – Aliás, lembre-se da festa de lançamento na semana que vem e…

– Eu não vou pra festa de lançamento nenhuma. – ele estendeu o braço para pegar algumas revistas que estavam em cima da mesa de centro. – Tem café?

Amane estreitou os olhos na direção dele, a cabeça pesando ainda mais com aquela visita inesperada.

– Não, não tem café. Caso não tenha percebido… eu acabei de acordar! – respondeu entredentes. – Eu ficaria muito agradecida se o senhor voltasse pra casa e me deixasse ter meu dia de descanso em paz!

– Mas eu tenho um romance novo pra discutir. – ele falou, num tom bastante desinteressado, folheando a revista.

– Eu não quero sab–

Parou a frase subitamente, abrindo mais os olhos e franzindo o cenho. Tinha ouvido direito? Abriu a boca para perguntar se tinha ouvido direito, mas sabia que Ryo era o tipo de pessoa que odiava se repetir. Ele continuou bastante interessado na revista feminina, encostando-se ao sofá e começando a ler uma reportagem sobre uma atriz famosa de uma das novelas que Amane acompanhava. Ela fechou a boca e olhou para os lados, vencida pelo espírito de editora e pela possibilidade de ser a primeira a saber do novo enredo do famoso escritor. Suspirou profundamente.

– Eu vou preparar o café… e tomar um banho rápido, se não se importa. – disse, apontando na direção da cozinha.

– Não precisa se preocupar comigo, eu não vou a lugar nenhum. – não desviou o olhar para ela. – E meu café é puro.

– Eu sei. – ela fez um aceno breve com a mão e seguiu na direção do quarto para poder tomar um banho rápido, despertar, escovar os dentes, colocar uma roupa mais composta e finalmente voltar à cozinha para preparar o café para os dois.

Tomou uma aspirina no meio do caminho e assim que o café ficou pronto, colocou pelo menos três colheres de açúcar na sua xícara, colocando as duas numa bandeja assim como um pote de biscoitos, deixando um na boca no meio do caminho. Chegou à sala e Ryo ainda estava folheando a mesma revista, as penas cruzadas, um sorriso divertido no rosto enquanto lia uma das reportagens.

Ela deixou a bandeja sobre a mesinha de centro e se sentou no chão ao lado desta, pegando outro biscoito para comer.

– Do que está rindo?

– Então você é o tipo de garota que gosta de romances açucarados? – ele mostrou um questionário na revista que ela tinha respondido e cujas respostas apontavam para o tipo de romance que conquistaria a leitora.

Ela sentiu o rosto corar e puxou a revista violentamente das mãos dele, sentando em cima dela e pegando mais um biscoito.

– Então, o sensei ia me falar de outro romance? Já estou acordada, vamos trabalhar. – levou a xícara de café aos lábios, tomando alguns goles enquanto ele fazia o mesmo, estendendo o braço para pegar a outra xícara antes de começar a falar.

Aquele tipo de coisa já tinha se tornado bastante comum. Era editora de Takashi Ryo – pseudônimos Nakao Yuhiko e Hanari Yuu – há mais de três anos e naquele tempo, ele tinha publicado três livros de grande repercussão e quatro de menor alcance – tivera mais trabalhos importantes antes de trabalhar para sua editora –, o que já era consideravelmente impressionante para um autor, que costumava escrever um livro por ano. Os dois últimos tinham sido os mais famosos e Amane confiava que o novo que tinham acabado de lançar também seria bem recebido. Não era estranho que ele aparecesse em sua casa ou ligasse para discutir ideias novas para os livros ou os capítulos que ia escrever. Certo que ele era o autor que mais lhe dava trabalho e mais negligenciava os prazos, mas se tinha uma coisa que ele fazia bem e com gosto era escrever os romances… e muito bem. O que era impressionante, porque ele não costumava durar muito tempo em qualquer relacionamento sério. Então, sempre que ele estava disposto a lhe contar as ideias novas ou compartilhar os novos capítulos, ela estava disposta a ouvir e não se arrependia daquilo, independentemente de ser três da manhã, ou de estar no meio de uma festa. Aquilo compensava as vezes em que tentava extrair alguma ideia dele ou que tentava lhe informar dos prazos: ele sempre se trancava no apartamento e no escritório convenientemente à prova de som e não se deixava perturbar ou ser apressado por ninguém. Por mais difícil que fosse lidar com os autores, tinha que admitir que o melhor sentimento era ver uma das suas obras publicadas e se tornando reconhecida.

A dor na cabeça foi diminuindo gradualmente enquanto começava a discutir as ideias do novo roteiro de Ryo. Eventualmente pegou papel e caneta para fazer algumas anotações, enquanto ele fazia apenas anotações mentais, bastante acostumado com as ideias que começavam a se formar em sua cabeça e adicionando as instruções e opiniões de Amane à sua memória que era bem seletiva. Sorriu brevemente ao lembrar de Aoki e de como ele tinha tomado seu tempo para fazer as anotações que ela lhe indicava e não esquecer de nada… quem sabe um dia ele seria igual a Ryo e não precisasse daquilo, mas variava de pessoa a pessoa.

– Bom, se a ideia principal já está bem encaminhada, qual a sua pretensão para publicar o novo título, Ryo-sensei? – perguntou, depois de ter feito várias anotações sobre a história nova e sobre suas próprias recomendações, começando a anotar então os prazos. – Como vamos lançar sua obra mais recente agora, vamos esperar para ver a repercussão e então decidir se o próximo livro vai ser lançado em seis meses ou menos e…

– Vou lançar esse só depois de um ano. – ele falou, deixando a xícara de café vazia na bandeja, a mesma já tinha sido preenchida três vezes.

– Um ano? – Amane arqueou as sobrancelhas, afinal, ele costumava lançar os títulos com um espaço menor de tempo, embora com pseudônimos alternados dependendo do estilo do romance: romance adulto homossexual ou heterossexual.

– Sim. Quero escrever no meu tempo. – respondeu tranquilamente.

– Hm… tudo bem então. – ela concordou, começando a fazer mais anotações. – Eu vou checar o progresso mensalmente. Apresentarei a proposta ao conselho editorial para ser aprovada, mas bom… sabemos que não vai ser um problema.

– Claro que não. – ele olhou o relógio de pulso, constatando que o mesmo já marcava mais de meio-dia. Observou Amane fazer as anotações na folha de rascunho. – Vai me irritar todo mês de novo?

– É claro, se não fizer isso, o sensei não vai escrever nada. – respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, a atenção voltada para a folha.

– Já passa de meio-dia, estou com fome, vamos almoçar. – Ryo passou a mão pelos cabelos, levemente incomodado.

– Vamos, vamos, também estou com fome. Vou só guardar as anotações e trocar de roupa. Podemos falar mais do roteiro no restaurante aqui per–

A voz foi interrompida pelo som da campainha invadindo o apartamento de novo. Tanto ela quanto Ryo levantaram o rosto na direção do pequeno corredor que dava na porta de entrada. A mulher suspirou profundamente, pousando a testa na mesa com uma expressão chorosa.

– Por que é que ninguém consegue me deixar em paz no meu dia de folga? – lamentou-se, levantando para atender a porta antes que o novo convidado inesperado começasse a apertar insistentemente na campainha do mesmo jeito que Ryo.

– Está esperando alguém?

– Não… – ela respondeu rapidamente, saindo da sala e indo até a porta de entrada. Mal conferiu quem era através do olho mágico, abrindo a mesma. – O que f–?

Congelou na porta. Aquilo só podia ser outra brincadeira sem graça. De novo, ele estava ali, naquelas mesmas roupas chamativas, como se estivesse trabalhando 24 horas por dia. O terno caro, uma camisa branca com os botões da gola abertos, calças e sapatos sob medida, as mãos nos bolsos da calça. E claro, o sorriso convencido no rosto.

– Só pode estar brincando comigo. – as palavras saíram num tom de incredulidade, e sentiu o rosto corar involuntariamente ao colocar os olhos nele. Era um absurdo o efeito que aquele homem podia lhe causar apenas por aparecer em sua frente.

– Então, almoço. – ele disse, encostando-se à batente da porta. – Pelo seu estado, não vai me dizer que está trabalhando também.

– Eu já disse pra me deixar em paz! – respondeu Amane, o tom irritadiço. – Achei que já tinha me esquecido depois desse tempo todo…!

– Ah… então estava pensando em mim a semana toda? Isso é um bom sinal, não é? Estou mais perto de ouvir aquela confissão. – Kazuki se curvou na direção dela, o sorriso pretensioso.

– Deixe de falar besteiras! Não vou sair com você, está doido! – ela já ia fechar a porta na cara dele, mas ele a segurou facilmente com uma das mãos.

– Seu mau-humor já está perdendo a graça, Amane. – mesmo o sorriso ainda notável, o tom dele parecia um pouco mais sério, e mulher sentiu o corpo estremecer rapidamente.

– Esse seu joguinho idiota que já está perdendo a graça. Me deixe em paz de uma vez.

– Isso está fora de cogitação…

– Por que está demorando tanto? Eu disse que queria almoçar.

A voz de Ryo atraiu a atenção dos dois para o fim do corredor dentro da casa. Ainda mais a atenção de Kazuki, cujo sorriso se desfez imediatamente ao pousar os olhos sobre o homem no fim do corredor, erguendo-se de novo para ficar numa posição reta e dando um passo voluntário para dentro do apartamento. Encarou o homem diretamente e recebeu o olhar sério de volta. Ryo apenas cruzou os braços diante do corpo, a expressão condenando que não estava gostando da companhia desconhecida.

– Quem é esse? – a pergunta que quebrou o silêncio veio de Ryo.

– Eu que devia perguntar isso. – o tom de Kazuki era arisco, e Amane olhou de um para o outro sem entender exatamente o que estava acontecendo. Ele voltou o olhar para Amane e ainda tinha a expressão séria. – Quem é esse homem?

A resposta surgiu quase automaticamente na garganta da mulher quando viu o olhar incisivo sobre si, mas não teve tempo de pronunciá-la, já que foi interrompida novamente por Ryo, que cruzou o pequeno espaço entre eles com apenas dois passos largos.

– O intruso aqui é você. – Ryo parecia igualmente ameaçador e Amane se perdeu totalmente na situação inusitada. Antes que pudesse explicar toda a situação, sentiu o braço de Ryo passar por cima de seu ombro, puxando-a para perto dele de uma maneira bem possessiva. – O que quer com minha Amane?

Naquele instante, Amane podia jurar que tivera um vislumbre de uma expressão assassina passar pelo rosto de Kazuki. Mas aquilo certamente não passava de impressão, já que ele não tinha aquele tipo de expressão pesada. Ao contrário, ele só ficou mais sério e não desviou o olhar de Ryo, o que a deixou apenas mais e mais perdida.

Sua Amane? – Kazuki respondeu agressivo.

Minha. O que você tem com isso?

“Ehhhhh?!”, os olhos dela arregalaram com a tensão que tinha se formado na porta de seu apartamento. E acima de tudo, que história idiota era aquela de minha Amane inventada pelo escritor?! Aquele estava sendo um sábado extremamente atípico.

First Love: Lunch [FIM]

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