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First Love Game: Cap. 1 [+13] - Contos Perdidos
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First Love Game: Cap. 1 [+13]
Como prometido, aqui está mais uma atualização dessa semana! Acho que vou atualizar tanta coisa que nem tem o que comentar. Adorei escrever esse capítulo, tentando voltar um pouco pra comédia romântica (ainda não tem nada de engraçado, mas vamos ver se eu consigo desenvolver melhor isso aí hahahah XD). Como eu tinha explicado, mesmo sem os nomes nos prólogos, essa historinha se passa no Japão, com Yakuza e tudo mais. Não se preocupem, não estou usando tratamentos nem expressões em japonês (como fazia em alguns fics), mas os nomes, pra quem não tá acostumado, o sobrenome vem antes e o nome depois, e por respeito, em ambiente de trabalho e tudo mais, as pessoas se tratam pelo sobrenome, só os mais íntimos se tratam pelo primeiro nome. Pode ser um pouco chato pra quem não está acostumado, mas logo pega o jeito da coisa. Ah, e mais um detalhe que eu realmente não sei como mudar... no Japão, quando alguém vai se dirigir a um escritor, usa o termo "sensei", a tradução literária seria professor (pelo que to acostumada XD) mas é usado como um termo de respeito para os escritores e professores e enfim, esse tipo de gente [pessoa que nem pesquisa pra dar as infos certas] Então, se virem algum nome seguido de -sensei, provavelmente se refere a um escritor... *coisinhas chatas, né?? Hahaha!*

Bom, sem mais delongas, divirtam-se, comentem, ignorem, enfim! Sintam-se à vontade! Como já tinha dito, essa historinha tem muitas referências de mangás que eu já li, então eu quase a considero um fic, hahaha! Mas gosto bastante de escrevê-la, espero que vocês gostem de ler algo mais descontraído! (depois de lançar Children of Death, todo mundo precisa de descontração XDD) Até amanhã, com a atualização de Elo de Sangue, pessoas! Boa leitura!

Disclaimer: É minha. Cópias não-autorizadas estão sujeitas a processo judicial.

First Love Game

First Love: Reunion

Aquele sábado tinha sido exclusivo para relaxar. Era apenas aquilo que ela tinha em mente, e a palavra se repetia em sua cabeça como um mantra desde que saíra do trabalho conturbado na noite da sexta e dispensara a companhia dos colegas de trabalho para ter um longo e bom sono com mais de oito horas. Ela adorava livros, desde a escola, tinha que admitir que eram a sua melhor companhia… podia ter descoberto vários outros sentimentos e interesses desde o colegial, mas ainda assim, não tinha como se desligar daquelas peças de trabalho tão bonitas, bem feitas e que passavam todo tipo de situação entre aventura, mundos imaginários, romances, tragédias, suspense, terror, ficção, realidade, o possível e o impossível ao mesmo tempo… tudo era simplesmente perfeito. Claro, ela nunca fora o tipo de pessoa que conseguia colocar todas as palavras e pensamentos em ordem, menos ainda escrevê-los. E se tentasse, certamente se depararia com um quarto de folhas riscadas e apagadas na tentativa de escrevê-los melhor e com ideias mais chamativas e interessantes. Mas não havia só isso no mundo dos livros, e ela encontrou sua verdadeira vocação quando descobriu todo o mundo por trás da publicação de um livro: desde os manuscritos, às revisões, edições, marketing, escolha de títulos, capas, imagens, fontes, números de páginas, papel… tudo que precisava de um trabalho minucioso e dedicado para chegar às bancas e trazer um novo mundo, uma nova novela para os leitores assíduos – como ela sempre o fora.

Tinha demorado um pouco para subir na profissão, mas depois de cursar com mérito a faculdade voltada para a área de literatura, de se esforçar num mestrado e começar a trabalhar num doutorado… estava muito orgulhosa de ser editora de dois escritores de renome no Japão. Dois escritores… muitas pessoas podiam achar besteira ser editor de dois escritores apenas, mesmo que eles fossem levemente famosos. Só quem trabalhava com ela sabia o sufoco que era lidar com os dois gênios completamente opostos, que sempre davam trabalho para cumprir os prazos e sempre lhe deixavam à beira de um ataque de nervos. Para pessoas de fora, seria pouco, para pessoas dentro do trabalho, viviam perguntando como ela suportava os dois e como ainda pensava em ser editora de um terceiro escritor… porque sim, ela pretendia ajudar mais um escritor, embora este fosse ter apenas o seu primeiro trabalho lançado no mercado literário.

Aquela era a vida que Yamamoto Amane queria e sonhara por longos anos desde deixar o colegial. Tinha um emprego que gostava bastante, um emprego que sabia que fazia com a maior dedicação e perfeição possível, e que lhe sustentava e lhe oferecia os privilégios de uma vida de classe média alta. O apartamento pequeno era apenas o que ela queria no momento, num condomínio simples. Tinha um quarto, uma cozinha, uma sala, um banheiro e uma área de serviço, era perfeitamente organizado e tinha um ar bem aconchegante, além de ter um ar bastante tradicional com um kotatsu¹ na sala e futons² enrolados dentro de seu armário. A porta que dava para a varanda era de correr e se o piso fosse de madeira, lembraria perfeitamente a sua casa antes de se mudar para o centro de Tokyo.

A primavera estava chegando ao fim, o clima já estava começando a esquentar mais do que o agradável, e ela precisou ficar vestida apenas numa camiseta regata, shorts curtos e andar com um abanador para todo canto da casa. Mesmo que a via de regra do seu sábado fosse relaxar, ela ainda passou a manhã inteira organizando a bagunça dos manuscritos em seu quarto/escritório, ocupou-se em preparar o almoço – como raramente fazia durante a semana – e varreu o apartamento e tirou a poeira de alguns cômodos. Afinal, depois de cumprir os prazos com sucesso, não eram só os escritores que tinham que colocar o resto da vida em ordem, era principalmente ela, que deixava tudo desmoronar ao redor enquanto ficava cobrando intensamente dos clientes… e isso incluía muitas vezes ter que passar dias nas casas deles, levar comida – ou eles não sobreviveriam – e aturar um mau-humor sem tamanho ou uma depressão suicida.

Quando ela ficou satisfeita com o próprio trabalho, observando como a casa estava organizada, limpou a testa e seguiu para o banheiro. Demorou-se na banheira por longos quarenta minutos antes de finalmente sair e se enxugar, vestir o mesmo estilo de roupa confortável que usara durante o dia, e deixar o abanador de lado, já que a noite trazia uma brisa mais suave através das portas abertas da varanda. Prendeu a franja para cima da cabeça com duas presilhas e amarrou o cabelo longo e preto num nó desleixado enquanto se sentava diante da TV, as pernas cruzadas em posição de lótus, para tomar o resto do sorvete de chocolate que estava no congelador e assistir mais um capítulo de sua novela favorita. Podia não ter relaxado durante o dia inteiro, mas a noite sim, seria a sua promessa de um descanso merecido que se prolongaria até o domingo.

Esperança falha. Mal sintonizou o canal da novela, ouviu a campainha tocar. Rodou os olhos e baixou o volume da TV, apenas para se certificar de que não estava ouvindo coisas… a campainha tocou novamente. Suspirou pesadamente, quem poderia ser lhe irritando àquela hora? Podia até imaginar que era um dos escritores, mas eles costumavam fazer aquilo pelo celular – tinham chegado em sua porta uma ou duas vezes, no ápice do desespero, entretanto –, seus amigos estavam devidamente avisados que ela não queria companhia naquele fim de semana em particular e precisava se recuperar dos prazos corridos dos dois escritores que tomava conta, qualquer pessoa que aparecesse ali estava disposta a receber um olhar irritado e uma reclamação realmente longa se não tivesse ao menos trazido um outro pote de sorvete para se juntar a ela na frente da televisão.

Com a pior vontade da face da terra, ela finalmente abriu a porta, puxando-a com força para extravasar o começo da sua raiva. Colocou a mão na cintura e levantou o rosto para encarar uma pessoa totalmente inesperada e desconhecida. Primeiro, franziu o cenho… havia ali, diante da sua porta, um homem de pelo menos 1,80 m, cabelos negros bem penteados para trás, roupas sociais finas, um sobretudo preto que devia estar desconfortável naquele calor, um par de luvas também pretas e um cigarro entre uma das mãos. O rosto dele era certamente agradável e as feições eram familiares, os olhos lhe encararam com algo que ela não conseguiu definir como outra coisa senão pura arrogância. Ele sorriu, e por algum motivo desconhecido, ela sentiu o coração falhar uma batida. Não teve tempo de perguntar quem ele era depois do momento de surpresa ao encarar um homem tão bonito batendo à sua porta num sábado de noite – e desconhecido, vale lembrar.

– Eu vim ouvir o resto da sua confissão.

Aquela voz. As palavras dele entraram em seus ouvidos como um jorro de água quente bem desagradável. Ela não teve como evitar a expressão de surpresa que se formou em seu rosto ao notar porque o coração falhara uma batida, e porque as feições dele lhe pareceram de início tão familiares. A voz era mais grave, mas era extremamente parecida… e depois de ler os últimos romances lançados pela editora em que trabalhara, além de não estar se relacionando com ninguém no momento… era exatamente naquela pessoa que estivera pensando durante aquela mesma semana. A reação demorou a vir, e ela realmente não sabia o que fazer. O sorriso dele se tornou mais convencido e debochado, e ela soube que a expressão dela tinha causado aquilo. Ao se dar conta daquele fato simples, ela não pensou duas vezes – nem pensou da primeira vez, na verdade –, com um movimento rápido e brusco, fechou a porta na cara dele, provocando um baque surdo que ecoou pelo apartamento.

O que foi isso?! – ela encostou-se à porta, os olhos ainda levemente arregalados, a voz saiu sem que ela percebesse, mas foi num tom de sussurro e desespero. Instintivamente, passou a mão na cabeça, lembrando que estava completamente desarrumada… não que devesse estar bem apresentada para receber qualquer pessoa, ele menos ainda… mas chegou a conclusão de que aquilo simplesmente não podia estar acontecendo, ou que ela provavelmente estava confundindo a pessoa que batera à sua porta.

Mais de dez anos tinham se passado desde o colegial, treze, para ser exato. Treze anos que eles tinham terminado o namoro infantil de um jeito infantil e imaturo… e que certamente não afetara em muita coisa a vida dos dois… e se ela bem lembrava, ele tinha que ser alguma coisa relacionada à máfia, não era? Por que ele voltaria naquela hora, naquele momento? E que diabo de frase era aquela?!

– Eu devo estar ficando louca, é isso. – ela se recompôs, respirando fundo e ficando de pé normalmente. Colocou uns fios do cabelo atrás da orelha, depois de terem se soltado quando ela passou a mão pela cabeça. – Isso não pode absolutamente ser o que estou pensando… e estou perdendo minha novela.

Sabe que posso ouvi-la através da porta?

A voz do outro lado fez com que ela desse um salto com o susto, o coração batendo acelerado mais uma vez. Não sabia se pelo medo, ou se aquilo tinha sido provocado simplesmente pela voz dele – o que ela acharia lamentável para o próprio coração estar fazendo aquele tipo de brincadeira sem graça com ela.

Não é lá uma porta muito resistente… nem grossa. Não vai abrir de novo? Ainda não ouvi o que vim ouvir.

– E o que você acha que vai ouvir, seu doido?! – ela abriu a porta de novo, mas um espaço pequeno suficiente apenas para que sua cabeça aparecesse, encarando-o com uma expressão de raiva. Ele estava tragando o cigarro. – Pare de fumar na minha porta, vai deixar esse cheiro entrar no meu apartamento!

– Hm… parece que ficou bem mais arisca do que antes. – ele disse, jogando o cigarro pela grade de proteção do corredor, deixando-o cair alguns andares. – Mas ainda parece um gatinho assustado se escondendo atrás da porta.

– Não sei do que está falando. Por favor, saia daqui ou vou chamar a polícia. – no mesmo instante, ela tirou a cabeça do pequeno espaço que tinha aberto e fez menção de fechar a porta. Alguma coisa travou seu movimento imediatamente, e ela olhou para baixo para notar o sapato preto de couro lustrado que parecia extremamente caro.

– Não seja tão difícil, Amane. Por que não me deixa entrar e nós conversamos sobre os velhos tempos de escola? – propôs o homem, empurrando a porta facilmente com uma das mãos e conseguindo encará-la de novo. Ele sorriu ao notar como o rosto dela estava vermelho e ainda mais surpreso que antes.

– Olha só, eu não sei quem você acha que é, mas com certeza não é quem está dizendo ser. – ela persistiu… sabia quem ele era perfeitamente. – Então… saia do meu apartamento, seu pervertido!

A atitude foi impensada e totalmente infantil. Ela levantou a perna e desceu num movimento certeiro até pisar com toda a força que tinha na ponta do pé dele calçado naquele sapato caro. Não ouviu uma reclamação de dor, mas ele removeu o pé do local imediatamente, e ela conseguiu empurrar a porta com força para fechá-la. Ele foi inteligente o suficiente para tirar os dedos da lateral antes que ela os esmagasse fortemente ao empurrar a porta com o próprio corpo, temendo que ele fosse abri-la de novo à força.

Não seja tão má, Amane. Eu só queria fazer uma visita.

– Ninguém faz visita desse jeito, principalmente a um desconhecido! – ela respondeu, ainda encostada com força à porta, que já tinha passado a chave e a corrente de segurança. – Vá embora ou eu realmente vou chamar a polícia.

Eu já entendi, acho que não foi uma boa ideia tentar visitar uma mulher solteira num sábado à noite, você tem uma reputação a manter, não é mesmo? – a resposta dele do outro lado da porta foi num tom de divertimento. – Não se preocupe, vamos nos encontrar em situações melhores. Ainda temos assuntos pendentes a tratar, certo?

– Eu já mandei ir embora! Estou mesmo ligando pra polícia! – ela respondeu, o ouvido encostado à porta como se quisesse ouvir o menor dos movimentos.

Até mais, Amane.

Ela não respondeu, finalmente ouviu os passos pelo corredor até que eles ficaram distantes o suficiente para que ela pudesse se certificar de que ele tinha ido embora. O coração ainda estava acelerado, e por mais que tivesse insistido em não conhecê-lo e provavelmente ligar para a polícia – sequer tinha chegado perto do telefone – era óbvio que lembrava muito bem dele, e não havia nada que pudesse fazê-la esquecer completamente. Ele aparecer ali, diante da porta da casa dela, e fazendo uma afirmação tão sem cabimento como aquela! Ela brigou com o próprio coração por ficar ainda mais acelerado só de lembrar. Sucumbindo à tentação, ela abriu a porta e espreitou no corredor na direção das escadarias para o andar de baixo… de fato, ele tinha sumido. Ela cruzou o pequeno corredor e olhou para baixo, dois andares abaixo, e viu um carro que parecia muito chique e caro estacionado na frente do prédio. Mais alguns minutos, e o mesmo homem saiu do prédio e andou até o carro. Ela ficou olhando-o de cima, e surpreendeu-se quando foi pega, assim que ele levantou a cabeça e seus olhos se encontraram mais uma vez. Num impulso, ela deu um passo para trás, batendo na porta do próprio apartamento e controlando as batidas descompassadas do coração.

Definitivamente, em toda a sua carreira de leitora de romances assíduos, editora de famosos romancistas… ela imaginaria que ele, entre todas as pessoas que encontrara e se relacionara durante a faculdade e o tempo de trabalho, voltaria para encontrá-la. Depois de mais de dez anos! Aquilo tinha que ser uma brincadeira de mal gosto! Foi com aquele pensamento que ela voltou para dentro de casa e fechou a porta, esquecendo que o sorvete já devia estar derretido e que a novela já devia estar perto de acabar.

Enquanto Amane tentava recuperar todo o bom senso perdido e reencontrar o caminho até a sala de estar, mesmo que o apartamento fosse tão pequeno, o homem entrava em seu carro, guiado por um motorista que o esperava já com o carro ligado.

– Para onde vamos, chefe? – o motorista perguntou, assim que o homem fechou a porta.

– De volta pra Ginza. – ele respondeu, apoiando o braço na porta do carro e o queixo na mão. Um sorriso satisfeito surgiu em seu rosto, e ele olhou para fora da janela mais uma vez. Ela tinha sumido do corredor quando ele olhou para cima, mas aquilo já tinha sido divertido o suficiente. – Até que você mudou bastante, Amane… isso vai ser muito mais divertido agora.

[…]

Tormento. Aquela era a palavra que povoara sua mente desde a noite de sábado até a noite de domingo. E a única coisa, incrivelmente simples, que ela realmente queria: era relaxar. Por que, simplesmente por que aquele homem tinha que inventar de aparecer do nada na sua vida tranquila e próspera de novo? Só pra bagunçar com sua cabeça! Já tinha passado e repassado aquela situação adolescente na cabeça por muito tempo, já tinha chorado sobre o leite derramado, já tinha ficado deprimida, já tinha ficado com raiva, já tinha aceitado… e quando achava que estava na fase do total esquecimento, o cenário voltava a sua cabeça com total rejeição. Isso, a palavra que queria era exatamente rejeição! Kudo Kazuki simplesmente não merecia nem um milésimo da sua atenção depois daquele término sem sentido na época do colégio, e ela tinha chegado àquela conclusão desde dois dias atrás, isso mesmo. Ele tinha sido covarde, não tinha compartilhado nada com ela – como todo bom namorado de romances juvenis e adultos faziam –, tinha sido egoísta e não merecia mais a sua atenção. Naquela época ela podia ser só uma garotinha insegura no colégio que ficara feliz com a declaração dele e que ficaria ainda mais feliz se ele tivesse mudado de ideia e ido atrás dela quando terminaram o namoro… mas agora ela era uma mulher muito mais decidida e orgulhosa de si mesmo, e aquele romancezinho de escola não ia voltar para lhe atormentar a vida perfeita!

– E que inferno de roupa era aquela?! – ela reclamou alto, consigo mesma, enquanto quase matava um tomate sufocado ao preparar uma salada para o jantar de domingo. – Até parece que ele ficou rico ou coisa parecida! Deve ter virado um host ou coisa parecida… bom, ele não está definitivamente com a mesma cara da época do colégio. E ele não tinha personalidade para entrar na máfia… será que…

Ela arqueou as sobrancelhas, ficando pensativa por uns minutos, deixando que as imagens da época do colégio voltassem a surgir em sua mente. Fechou os olhos, balançando a cabeça para os lados e voltando a se concentrar em sua salada.

– Definitivamente ele não entrou para a máfia… não com aquela personalidade calma e medrosa. – concluiu, dando de ombros e voltando a se concentrar apenas na comida.

A sua mente se acalmou quando percebeu que já era tarde da noite de domingo, e não tinha recebido mais nenhuma visita inusitada ou qualquer ligação inconveniente. Enfim, tinha sido tudo um mal-entendido e ela podia voltar para a sua vida normal e cotidiana, seu trabalho adorado e não ficar pensando em amores passados e relembrando coisas ruins. Afinal, ela não tinha o menor tempo para pensar em besteiras quando estava revisando manuscritos e puxando o pé dos escritores pelos quais era responsável.

A noite não concordou com o pensamento dela. Pouco depois de adormecer, teve o sono invadido por sonhos que lembravam de momentos muito alegres e particulares de quando estava ainda namorando com Kazuki, momentos que ela definitivamente tinha esquecido depois de terminar com ele. Não queria ter que admitir aquilo, mas acordou se sentindo ótima, mesmo que estivesse atrasada para o trabalho.

Levantou apressada, tomou banho e trocou de roupa em menos de vinte minutos. Colocou uma maquiagem básica e amarrou os cabelos longos num coque, deixando a franja solta. Mal comeu no café da manhã e saiu de casa terminando de calçar os sapatos de salto, colocando um casaco por cima da roupa social: saia cinza e blusa branca de botões. A bolsa estava cheia de manuscritos antigos e revisões da semana passada, mas não teve tempo de tirar todo o peso morto ou perderia o metrô e chegaria mais do que atrasada na editora. E naquela segunda em particular, não podia chegar atrasada. Ia ser apresentada ao novo escritor com quem ia trabalhar e ainda tinha uma reunião com o chefe do departamento de vendas… e ele não era lá muito tolerante com atrasos.

A mulher suspirou aliviada quando parou diante das portas de vidro do grande prédio da editora e o relógio ainda marcava cinco minutos antes do início do seu expediente. Respirou fundo e entrou no local de trabalho, cumprimentando as pessoas conhecidas e seguindo imediatamente para o seu departamento. Assim que alcançou a sua mesa, tão bagunçada quanto a sua bolsa estava naquele momento, uma das assistentes se aproximou, apoiando os braços em cima da divisória para poder falar diretamente com ela.

– Bom dia, Amane, como foi o fim de semana? Conseguiu relaxar? – ela perguntou, num tom amigável. Tinha os cabelos tingidos de loiro e estavam amarrados num rabo de cavalo alto, usava roupas mais casuais e menos maquiagem.

– Perfeitamente. – Amane respondeu, com um sorriso de satisfação, varrendo da memória a visita na noite de sábado. – Estava precisando. Até arrumei minha casa! Bom, como estamos longe dos prazos, vou ter que arrumar a minha mesa agora, enquanto não chegam mais manuscritos pra mim.

– Bom, acho que não vai ter muito tempo pra isso. – a outra respondeu. – Eu vi o senhor Tanaka falando que o novo escritor já está aí, quer falar com você na sala dele.

– Mas já?! – a outra olhou no relógio, nem eram 8h10 direito. – Bom, espero então que esse escritor seja tão pontual com os prazos quanto com os horários de reunião.

– Boa sorte, amiga.

– Cuida das coisas aqui pra mim, Rika? – ela pediu, pegando uma prancheta, uma caneta e seguindo para a sala que já conhecia bem.

– Pode deixar comigo. – a outra bateu num sinal de continência e observou Amane se afastar entre as várias mesas, falando rapidamente com os outros colegas de trabalho e chegando até a sala com porta de vidro no fim do corredor.

Bateu levemente na porta que tinha uma pequena placa com o nome Tanaka Hideo, departamento de edição, e não demorou muito a vir uma resposta.

– Com licença, senhor Tanaka. – ela entrou na sala depois de ouvir a autorização, curvou-se lentamente numa reverência e logo depois seus olhos passaram do homem de cabelos levemente grisalhos para um jovem que estava sentado num sofá ao lado da sala. – Queria falar comigo?

– Bom dia, senhorita Yamamoto. Que bom que já chegou! – o homem respondeu com um sorriso gentil. – Estava querendo lhe apresentar seu novo colega de trabalho. Estava aqui explicando a ele como funcionam os processos na nossa editora, mas seria bom se você pudesse tirar um tempo para mostrar o lugar a ele e separar um tempo para conversar sobre o manuscrito que ele nos trouxe.

– Oh, é mesmo? – ela sorriu para o rapaz que estava sentado, ele parecia deveras tímido, e novo demais para ser um escritor. Estava torcendo para não ter manuscritos para revisar naquele dia, mas já esperava que aquilo acontecesse com o novo escritor. – Vai ser um prazer, senhor Tanaka.

– Yamamoto, este é Shiroi Aoki. – o jovem se levantou para fazer uma rápida reverência na direção dela. – Ele escreve sob o pseudônimo Ichigo Yuki, já deve ter ouvido falar de alguns de seus trabalhos.

– Ah… sim, já ouvi falar. – Amane arqueou as sobrancelhas, certamente já tinha ouvido falar no nome, mas era um autor de mangás, não conseguia lembrar de qualquer lançamento dele literário. – Você é famoso por alguns mangás para garotas…

– Isso mesmo. – ele finalmente falou alguma coisa e a voz saiu mais grave do que Amane esperava daquele corpo tão pequeno e esguio.

– Shiroi já é famoso pelos mangás publicados e lida muito bem com esse tipo de romance. Ele publicava conosco, mas em outra sessão, dessa vez, ele está se aventurando na área dos romances literários, e você vai guiá-lo, Yamamoto. – Tanaka disse. – Ele já tem um romance pronto, quero que o avalie, conserte, trabalhe nele e me diga se está pronto para mudar de rumo no mundo editorial.

– Pode deixar comigo, senhor, farei o melhor possível. – disse Amane, fazendo mais uma breve reverência.

– Bom, acho melhor deixar que os dois se entendam. Pode seguir com a Yamamoto, Shiroi. Ela vai lhe explicar melhor como funciona a seleção para a publicação dos livros aqui.

– Certo. – ele fez um aceno positivo na direção de Tanaka e depois se voltou para Amane. Apenas naquele momento que ela confirmou que ele usava um par de óculos de grau sob os fios de cabelo negro desalinhados. – Espero que possamos trabalhar bem juntos.

– Eu espero o mesmo. – Amane respondeu, com um sorriso simples no rosto, e seguiu para fora da sala, acompanhada pelo garoto. Sim, garoto, ele aparentava ter seus 17 ou 18 anos com aquele porte, mesmo que fosse mais alto que ela, mas ela não sabia muitos detalhes sobre os autores de mangás, na verdade, só sabia mais coisas sobre os autores dos quais era responsável.

Quando saíram da sala do chefe do departamento, Amane seguiu com ele para apresentar todo o andar voltado para a edição dos livros, as pequenas cabines com mesas separadas por divisores de um metro e meio possibilitavam bastante interação entre os editores e assistentes, assim como troca de ideias e principalmente muita bagunça na época em que os prazos estavam chegando ao fim. Todo o setor se dividia por gêneros de livros a serem publicados, era um vasto ambiente com uma grande variedade. Havia um grande número de editores que cuidavam de um ou mais autores, mas a verdade era que o número de autores que eram publicados naquele setor não passava de vinte. Durante toda a caminhada e a apresentação, o garoto ao seu lado quase não falou nada, apenas concordava e continuava seguindo a editora, ouvindo tudo atentamente – ou não prestando atenção em nada, ela não sabia dizer ao certo –, até quando eles mudaram de setor e ela explicou o básico da produção dos livros, dos prazos, e do departamento de vendas e de marketing. Ela só voltou à sua mesa para deixar Aoki esperando enquanto ela tinha a reunião para discutir as tiragens de livros que iam ser lançadas dos dois escritores que tinham concluído os prazos, o que sempre era um empecilho, já que ele nunca concordava com a quantidade de livros que ela determinava para cada um deles, e eventualmente, eles tinham que pedir uma segunda tiragem.

Além dela, mais editores estavam estabelecendo as metas naquele momento e a reunião se prolongou muito mais do que ela esperava. Já passava de 13h quando finalmente foi liberada, e ainda teve os números propostos cortados quase pela metade, apenas para ter mais dor de cabeça no período de lançamento que se seguiria.

Quando ela voltou para o departamento de edição, seguindo direto para sua mesa em sua pequena cabine, tinha esquecido completamente de Aoki, que continuava esperando-a obedientemente, sentado em sua cadeira giratória, sem dar nem um sinal de que sairia dali.

– Shiroi… você ainda está aí! – ela deu uma risada sem graça. – Eu devia ter dito que podia sair para almoçar, ou até ir pra casa, se eu demorasse… e bom, as reuniões do departamento de vendas sempre demoram.

– Não tem problema. – ele deu de ombros, arrumando os óculos no rosto e voltando a segurar o manuscrito que tinha no colo com as duas mãos.

– Bom, que tal eu te levar pra almoçar, e daí você vai me passar seu manuscrito e falar das suas ideias? Eu vou ter que ficar com ele em algum momento, não é? – disse Amane, tentando ser amigável e recompensar as duas horas que ele tinha esperado sentado naquele cubículo.

– Mas… não vai ser um incômodo? – Aoki falou, levemente relutante.

– Incômodo vai ser se eu passar do meu horário de almoço e não comer nada. – disse ela, mais extrovertida, pegando a bolsa de cima da mesa e jogando sobre o ombro. – Vamos lá, tem um restaurante bom e barato aqui perto, vai gostar do ambiente.

– Certo. – ele finalmente concordou, acenando a cabeça, e se levantou, para acompanhar a mulher.

Antes que eles alcançassem as portas do elevador, a mesma assistente loira que cumprimentara Amane durante a manhã aproximou-se dela quase correndo, tentando acompanhá-la em tempo.

– Ei, Amane! Tem um recado pra você! – ela disse, parando ao lado da dupla.

– Tem? Tão cedo? – Amane arqueou as sobrancelhas, apertando o botão do elevador.

– Um cara te ligou, queria falar exclusivamente com você. – disse Rika.

– Não me diga que era Ryo-sensei de novo? – ela soltou um suspiro demorado pelos lábios, depois dos manuscritos enviados para a gráfica, alguns escritores adoravam atormentar a vida dos editores até o lançamento.

– Não, não… era um tal de… Kazuki. – respondeu Rika, e no mesmo instante, Amane arregalou os olhos.

– Você tem certeza?

– Kudo… acho que era o sobrenome dele. Kazuki Kudo. É, deve ser isso. Ele parecia bem interessado em marcar o almoço com você. O que é? Um namorado novo e não me contou? – o tom dela era de interesse, Shiroi pareceu se sentir incomodado com o rumo da conversa e se virou diretamente para as portas do elevador.

– Não faço ideia de quem seja, se ligar de novo, diga que eu morri. – a resposta de Amane veio com um tom de irritação, e ela agradeceu quando as portas abriram para entrar no elevador e apertar insistentemente o botão para que as portas fechassem. Aoki quase não conseguiu acompanhá-la, e ela ignorou as perguntas curiosas de Rika diante de sua reação exagerada.

O silêncio se instalou no elevador e Aoki sentiu certa tensão no ambiente. Só os dois estavam ali e ela nem olhou para ele, nem tentou falar nada para quebrar o gelo, como estivera fazendo durante toda a manhã. Um suspiro pesado escapou dos lábios da mulher quando as portas do elevador finalmente se abriram para saírem.

– Er… senhorita Yamamoto… talvez possamos deixar o almoço para outro dia, se achar melhor… – Aoki finalmente quebrou o silêncio, e apenas naquele momento a mulher pareceu lembrar que estava acompanhada.

– Ah? Não! De maneira alguma! Desculpe, Shiroi, só estava um pouco distraída. – ela fez um aceno com a mão, enquanto caminhava lentamente pelo térreo do prédio. – Então, vá me contando um pouco sobre seu novo romance, quero saber do que se trata desde já…

– Bom, eu não tenho muita experiência em narração, sou mais de desenhar mangás, mas estou com essa ideia nova, sobre um romance colegial, queria tentar escrever o livro. Já tenho três capítulos completos. – ele começou a falar, e finalmente Amane descobriu a zona de conforto dele. Aquilo acontecia bastante com todos os escritores com que estava familiarizada: eles adoravam falar das próprias ideias, e falavam bastante. Ela sorriu enquanto ele continuava a história. – Na verdade, o romance começa no colegial, mas algumas coisas acontecem e o casal principal se separa, ainda no começo da história, e depois de dez anos distantes, eles voltam a se encontrar de um jeito bem inesperado…

Ela tinha parado de ouvir exatamente na parte do “e depois de dez anos”. Arqueou as sobrancelhas de leve, imaginando que aquilo podia ser algum tipo de carma ou brincadeira de mau-gosto do destino.  Precisou se esforçar para evitar que um suspiro pesado escapasse dos lábios, ou aquilo certamente desanimaria o escritor… não que a história que ele estava escrevendo fosse ruim, só estava fazendo com que ela lembrasse mais do passado, da visita de sábado, e principalmente do mais recente recado de Rika, devidamente ignorado. Sorriu forçadamente para ele enquanto continuava a falar do manuscrito, e eles passaram pelas portas de vidro da entrada para seguirem até o restaurante. Os dois pararam de andar imediatamente quando a voz conhecida invadiu os ouvidos de Amane e ela sentiu um calafrio percorrer toda a sua espinha.

– Eu pensei que tivesse marcado um almoço com você. Não recebeu o meu recado?

Ela parou de andar de um jeito tão brusco que Aoki quase esbarrou nela. Também quase deixou a bolsa cair no chão ao pousar os olhos sobre o mesmo homem que estivera em sua porta no sábado à noite. Diferente daquela noite, ele estava usando uma roupa menos… suspeita, com um terno cinza, uma camisa preta por dentro, sem luvas, sapatos pretos de couro, os cabelos penteados devidamente para trás e uma gravata vinho. Tirou o cigarro da boca, jogando-o no chão, e desencostou do carro extremamente luxuoso que estava estacionado bem na frente do prédio, andando até onde ela estava parada.

– Eu fiquei esperando meia-hora. E eu não gosto muito de esperar. Principalmente quando tenho outros compromissos marcados para mais tarde. – ele continuou falando casualmente, e os olhos eventualmente pousaram sobre o jovem escritor que estava ao lado de Amane, ainda completamente petrificada ao encarar o homem agora mais perto dela. – E quem é esse moleque?

Aoki engoliu em seco ao encarar o homem que não parecia muito feliz com a sua presença ali, os olhos estreitos em sua direção. Ele era mais alto e tinha um porte certamente mais musculoso comparado ao seu. Amane ainda estava tentando processar o que estava acontecendo, e não conseguiu responder a pergunta. Logo a atenção dele voltou para a mulher.

– E então, vamos indo? Ainda tenho meia-hora livre, podemos aproveitar o suficiente do almoço.

“Isso. Não. Está. Acontecendo”, foi a única coisa que ela pensou.

First Love: Reunion [FIM]



¹ Tipo de mesa baixa (para que caibam as pernas das pessoas sentadas à volta) com um pequeno aquecedor elétrico embutido no centro, voltado para baixo, e um cobertor grosso "lacrando" a mesa pelos quatro lados para impedir que o ar quente escape.
² Colchão

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Música: none

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